Junto à Sé do Porto, no Beco dos Redemoinhos, existe uma casa que se pensa ter sido construída na primeira metade do século XIV — possivelmente a mais antiga da cidade.
Tem um aspeto flamengo, com uma chaminé colocada acima e no centro da fachada, e está esmagada contra a massa enorme da capela-mor seiscentista mandada construir pelo bispo D. Gonçalo de Morais.
Quase ninguém a vê. Existe um portão que veda o acesso ao beco onde a casa se situa, tornando-a inacessível mesmo para os próprios portuenses. Não está em roteiros turísticos. Não recebe visitantes. É a casa mais antiga da cidade e, ao mesmo tempo, uma das menos vistas.
O largo que desapareceu
Nem sempre foi assim. Em tempos, a casa dava para um largo animado, chamado Adro de Trás da Sé — um espaço público arejado e vasto, delimitado a ocidente pela charola da catedral, hoje desaparecida. O nome do beco vem das azenhas (moinhos) que ali existiam, alimentadas por um pequeno rio que passava no local.
Nessa época, o Porto era uma cidade episcopal — o bispo detinha poder espiritual e temporal, secundado por membros do alto clero que foram construindo residências em redor da capela-mor, o ponto mais sagrado da catedral.
A atual Rua de D. Hugo, então chamada Rua do Redemoinho, tornou-se o local de muitas residências de cónegos, algumas das quais ainda existem.
Uma torre defensiva transformada em casa
Entre a Rua do Redemoinho e o Adro de Trás da Sé, criou-se uma frente urbana com habitações de duas fachadas.
Foi nesse ambiente de elite eclesiástica que se construiu a casa mais antiga do Porto, talvez no século XIV — uma habitação em pedra coroada por ameias, semelhante às torres defensivas das fortalezas medievais. Esta tipologia foi comum no Porto da época, com vários exemplares ainda hoje identificáveis.
Com o tempo, este tipo de torre revelou-se pouco prático para habitação — condições de conforto limitadas levaram a que muitas fossem convertidas em estrebarias, palheiros, ou residência de classes em ascensão. Outras foram alargadas e modernizadas. Foi o que aconteceu com a casa do Beco dos Redemoinhos.
Os proprietários ao longo dos séculos
Nos finais do século XV, a casa pertenceu ao cónego Afonso Luís, sucedido pelo cónego João Privado. A partir de 1498, passou para o deão D. Rodrigo de Sousa, que realizou obras importantes no interior — nessa altura, a propriedade já incluía um edifício contíguo.
Em finais de quinhentos, o edifício estava arruinado. No século seguinte, pertencia ao genealogista Cristóvão Alão de Morais — é provavelmente dessa época a janela de peitoril do piso superior.
As ameias e o mistério do remate
O desenho atual das ameias que encimam a torre pode datar de período posterior à Idade Média — talvez depois de finais do século XVI, quando o edifício já estava em ruínas.
É possível que o colapso da parte superior da torre tenha levado à opção pelas duas águas e pela linha horizontal que hoje se vê. Algumas incongruências na fachada sugerem essa alteração, mas não há certeza documental absoluta.
Talvez não seja a mais antiga, afinal
Apesar do título que carrega, alguns autores defendem que a casa mais antiga do Porto é, na realidade, outra: o número 5 da Rua de Baixo, conhecida como Casa Torre do Barredo, que teria sido construída cem anos antes desta.
A casa do Beco dos Redemoinhos é um caso raro de património urbano que sobreviveu não por proteção ativa, mas por isolamento acidental — escondida atrás de um portão, longe dos roteiros, esmagada visualmente pela capela-mor que a ofusca.
Talvez não seja, afinal, a casa mais antiga do Porto. Mas é, sem dúvida, uma das mais esquecidas — e isso, paradoxalmente, pode ter sido o que a manteve de pé.






