No concelho de Portalegre, às portas do Parque Natural da Serra de São Mamede, Alegrete é uma vila pequena de casas caiadas de branco e ruas tipicamente alentejanas.
As origens são incertas — há vestígios romanos, suspeitas de passagem de tribos celtas, suevos, alanos e vândalos, mas os primeiros registos documentais da povoação só aparecem no século V.
A vila ganhou destaque histórico pela localização: junto à fronteira, era um ponto de defesa natural contra ataques castelhanos. D. Dinis ordenou a construção do castelo e incentivou o repovoamento da região — uma estratégia que repetiu em várias localidades fronteiriças do reino, conscientes de que território despovoado era território vulnerável.
O crescimento e o declínio
Os incentivos reais funcionaram, e Alegrete cresceu em dimensão e população. Mas, como aconteceu noutras vilas fronteiriças portuguesas, a paz trouxe consigo uma perda gradual de importância estratégica — e com ela, perda de população. Quando a fronteira deixou de precisar de defesa ativa, a razão de ser de Alegrete enfraqueceu.
O que se vê hoje
Apesar do declínio populacional, Alegrete mantém marcas visíveis do seu passado: o castelo, a Torre do Relógio, a Igreja Matriz, a Igreja da Misericórdia, o antigo edifício da Câmara Municipal e o coreto — um conjunto que documenta séculos de vida comunitária numa vila que nunca cresceu demasiado para perder a sua escala original.
À mesa, o porco preto, os enchidos, as migas e as açordas são os pratos que recuperam energias depois de um passeio pelas ruas estreitas da vila — cozinha alentejana sem adaptações, servida com a simplicidade que a região sempre praticou.
O trilho pela Serra de São Mamede
A partir de Alegrete, um trilho oficial de quase 11 quilómetros segue pelo Parque Natural da Serra de São Mamede, passando por açudes, levadas, estevais, cerejeiras e amieiros.
É um percurso de dificuldade elevada que exige preparação física e os devidos cuidados — mas que atravessa uma das zonas de maior biodiversidade do Alentejo.
Marvão, Castelo de Vide e a aldeia de Esperança
Marvão e Castelo de Vide, ambas com casas bem cuidadas e flores nas janelas, ficam nas proximidades — duas das vilas mais conhecidas e mais visitadas desta zona fronteiriça do Alto Alentejo.
Em Arronches, a poucos minutos, a aldeia de Esperança merece visita demorada. Dentro dos limites desta freguesia fica também Marco, ligada à vizinha Espanha pela ponte internacional mais pequena do mundo — um detalhe que situa Alegrete numa rede mais ampla de povoações fronteiriças com histórias entrelaçadas.
La Codosera, do outro lado da fronteira
Atravessando para Espanha, chega-se a La Codosera — aldeia onde a presença portuguesa é tão forte que a arquitetura das casas e a tipologia das ruas lembram diretamente o Alentejo. No verão, as piscinas naturais da aldeia são um destino popular para refrescar depois de um dia de exploração transfronteiriça.
Alegrete é uma vila que cresceu por necessidade militar e diminuiu por excesso de paz — uma trajetória comum a tantas povoações fronteiriças portuguesas.
O que ficou é um conjunto patrimonial modesto mas autêntico, numa zona do Alto Alentejo onde a paisagem, a gastronomia e a proximidade com Espanha criam um roteiro que vale a pena explorar com tempo.







