Em Montalegre, na margem sul da Albufeira do Alto Rabagão, Vilarinho de Negrões fica numa península estreita com as casas a espraiarem-se até quase tocar na água de todos os lados.
A albufeira foi concluída em 1964 e redesenhou completamente a relação desta aldeia com a paisagem em redor — antes havia vale, agora há água.
O resultado é uma aldeia que parece crescer sobre o reflexo de si própria.
Domingos Pereira, o padre guerrilheiro
A história desta região tem uma figura particular: Domingos Pereira, padre filiado no Partido Progressista e amigo de Paiva Couceiro, esteve envolvido na Monarquia do Norte — o movimento que, em 1919, tentou restaurar a monarquia depois da implantação da República. Participou em combates em Cabeceiras, Mirandela e Vila Real.
É uma figura que diz algo sobre o carácter desta zona transmontana — distante do centro político do país, mas não imune às convulsões nacionais, e com pessoas dispostas a tomar partido com a determinação que a distância geográfica não diminuiu.
Os castros e a freguesia de Negrões
Perto de Vilarinho de Negrões, a freguesia de Negrões tem um forno comunitário em granito, canastros esguios onde se conservava milho e centeio, e os castros de Negrões, Vilarinho e Lamachã — vestígios que atestam presença humana nesta região desde há séculos, muito antes da albufeira e da aldeia atual.
As aves da albufeira
As manhãs são o melhor momento para observar mergulhões-de-crista e outras aves aquáticas que aproveitam a tranquilidade inicial do dia para os seus mergulhos.
Quando a atividade humana começa, as aves deslocam-se para uma ilhota deserta formada por um penedo de grandes dimensões, onde continuam o dia longe de perturbação.
É um padrão diário que se repete com regularidade suficiente para que quem visite de manhã tenha boas probabilidades de assistir.
Ribeira de Pena e o património religioso
Ribeira de Pena, na fronteira entre o Minho e Trás-os-Montes, é conhecida pelo cultivo do vinho verde, do milho e do linho, e pela criação de gado e porco.
O património religioso da zona é denso: a Igreja de Canedo e Cerva, a Capela de São Pedro, a Igreja Matriz do Salvador, a Igreja de Santa Maria, e as capelas da Senhora da Guia e da Granja Velha são alguns dos pontos que documentam séculos de devoção numa região rural.
Montalegre e o castelo de D. Afonso III
Montalegre merece visita própria. A Ponte Velha — também conhecida como Ponte Romana, embora a denominação seja discutível — tem um único arco e um tabuleiro que sofreu várias alterações ao longo dos séculos.
Ao lado, o Castelo de Montalegre começou a ser construído em 1270, durante o reinado de D. Afonso III, com a Torre de Menagem acrescentada mais tarde. A fortificação defendia a fronteira de Portugal contra a ameaça de Castela — função que partilhava com outros castelos da linha defensiva do Norte transmontano. Hoje é Monumento Nacional e alberga um museu.
Vilarinho de Negrões é um daqueles lugares onde a engenharia do século XX — a barragem, a albufeira — criou uma paisagem que hoje parece tão natural como se sempre tivesse estado ali.
A península, as casas que se aproximam da água, os mergulhões que mergulham de manhã antes de fugirem das pessoas — é um conjunto que convida a ficar mais do que uma manhã.







