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Os livros proibidos da Biblioteca de Mafra

Em Mafra, três estantes rotuladas "Miscelânia vária" guardam oitocentos livros proibidos pela Inquisição. O Papa autorizou. Os morcegos protegem. O Index foi abolido em 1966.

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Jul 8, 2026
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A etiqueta é banal de propósito. “Miscelânia vária” — o tipo de designação que ninguém lê duas vezes. Mas as estantes 49, 50 e 51 do piso superior da biblioteca do Convento de Mafra guardam aquilo a que a instituição chama a maior colecção de livros censurados pela Inquisição: cerca de oitocentos volumes que o Index — a lista negra com que a Igreja proibia obras desde 1559 — condenou, e que Mafra conservou durante mais de dois séculos à vista de todos, escondidos num rótulo inocente.

A razão pela qual isso foi possível tem data e assinatura: em 1754, o Papa Bento XIV concedeu ao convento uma bula que o autorizava a guardar obras condenadas pelo Index. Era um privilégio quase impensável.

Entre 1540 e 1794, os tribunais do Santo Ofício de Lisboa, Porto, Coimbra e Évora condenaram mais de mil pessoas apenas por consultarem livros proibidos. Em Mafra, os frades franciscanos guardavam-nos às centenas, com a bênção do próprio Papa.

O que estava no Index

Boa parte do que ali se proibiu é, no fundo, a história do pensamento moderno. O Index condenou Galileu e Copérnico por sustentarem que a Terra girava à volta do Sol. Condenou Descartes, Espinosa, Voltaire, Rousseau, Kant. Condenou quem pensava de forma diferente sobre o universo, sobre a natureza humana, sobre o poder da Igreja.

Quase todos perderam apenas os livros. Um perdeu muito mais.

Giordano Bruno, frade dominicano, defendia que o universo era infinito e cheio de outros mundos. Roma prendeu-o e julgou-o durante cerca de sete anos, sem nunca o demover.

A 17 de fevereiro de 1600, levaram-no nu ao Campo de’ Fiori em Roma, com uma mordaça de couro a prender-lhe a língua para que não falasse à multidão, e queimaram-no vivo.

Conta-se que virou a cara quando lhe aproximaram um crucifixo, e que tinha dito aos juízes que talvez sentissem mais medo ao ditar a sentença do que ele ao ouvi-la. Três anos depois, toda a sua obra entrou no Index. Parte dela está hoje nestas estantes de Mafra.

A magia, a alquimia, e o livro que não tem palavras

Não é só de ciência que se faz a lista. Mafra guarda também um fundo de magia, astrologia e alquimia: páginas de Cornélio Agripa, de Paracelso, de Robert Fludd. E o Livro Mudo — um tratado de alquimia feito quase inteiramente de imagens, sem texto, que prometia ensinar a transformar uma gota de orvalho em ouro a quem soubesse lê-lo.

Entre as peças mais raras: um Alcorão traduzido para latim em 1543, uma Bíblia Políglota Complutense de 1514 com o texto em latim, grego, hebraico e aramaico, e páginas de Gil Vicente que a Inquisição leu, riscou e cortou em 1561 — deixando impressa na margem a própria mão da censura, o risco físico do inquisidor sobre as palavras do dramaturgo.

A sala e os seus guardiões

A biblioteca de Mafra é a maior sala de uma só divisão erguida na Europa no século XVIII: mil metros quadrados, trinta mil volumes, estantes que chegam ao tecto de uma sala com pé-direito de quase dez metros.

E tem guardiões que nenhum sistema de segurança moderno conseguiu substituir. Ao anoitecer, duas colónias de morcegos saem de trás das estantes do piso superior e comem os insectos que, de outro modo, devorariam o papel.

Fazem-no há séculos. São eles que protegem os livros — incluindo os proibidos — da destruição silenciosa que os insectos causariam sem intervenção.

O que sobreviveu

O Index foi abolido em 1966, quatrocentos anos depois de ter sido criado. Os homens que o desafiaram morreram — uns na fogueira, outros no esquecimento, outros no exílio. Os livros que ele quis apagar continuam em Mafra, intactos, classificados sob um rótulo banal numa estante do piso superior.

Por detrás de “Miscelânia vária”, o pensamento que a Igreja tentou suprimir aguarda quem ainda queira lê-lo.

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