A 10 de junho de 1580, Luís de Camões morreu em Lisboa. A data é uma das poucas certezas da sua biografia — sabemo-la porque a mãe herdou a pensão que o rei lhe concedera, e os recibos de pagamento ficaram guardados na Torre do Tombo.
Quase tudo o resto se perdeu.
Não se sabe ao certo quando nasceu. Aceita-se 1524 por convenção, mas as propostas variam, e o lugar de nascimento é disputado entre Lisboa, Coimbra, Santarém, Alenquer e o Porto. O maior poeta da língua portuguesa não tem certidão de nascimento.
A vida que ficou entre as datas
Camões perdeu o olho direito numa acção naval ao largo de Ceuta. Os retratos antigos mostram-no quase sempre de perfil — a esconder a falta. Em março de 1553 embarcou para o Oriente no São Bento e chegou a Goa no ano seguinte. Andou pela Índia, pelo Mar Vermelho, chegou a Macau onde exerceu o cargo de provedor dos defuntos e ausentes — um título que, visto daqui, soa a presságio.
Conta-se que sobreviveu a um naufrágio na foz do Mekong, salvando a nado apenas a si próprio e ao manuscrito de Os Lusíadas. A cena é célebre e vem, em boa parte, do próprio poema.
A donzela chinesa Dinamene, que a tradição diz ter morrido nessas águas, é hoje considerada pelos estudiosos uma invenção posterior — talvez a corruptela de uma palavra mal lida em alguma versão antiga do texto.
Regressou pobre. Diogo do Couto, que o encontrou em Moçambique antes do regresso, deixou escrito que o poeta vivia da caridade de amigos, retido por dívidas que não conseguia pagar.
Chegou a Cascais em abril de 1570. Dois anos depois publicava Os Lusíadas, e D. Sebastião premiava-o com uma pensão de quinze mil réis anuais — quantia honrosa, paga com atraso, insuficiente para o resgatar do aperto permanente.
Os últimos anos passou-os num quarto alugado perto da Igreja de Santa Ana, em Lisboa. A tradição quer que tenha morrido na miséria, sem um pano com que se cobrir, enquanto a peste varria a cidade.
Alguns historiadores moderam o quadro: tinha um escravo de nome Jau e meios de subsistência documentados, e há quem aponte a doença — não a fome — como causa do fim. A verdade ficará algures entre os dois.
Partiu sem ruído, no mesmo ano em que Portugal perdia a independência para Castela.
A lenda diz que murmurou no fim: “Morro com a pátria.” Nenhuma fonte da época regista essas palavras. São acrescento de gerações posteriores, ávidas de um epitáfio à altura do mito. Mas a coincidência das datas deu-lhes força: o poeta e o reino independente apagaram-se quase ao mesmo tempo.
A sepultura que desapareceu
Foi sepultado em campa rasa. Onde, ao certo, ninguém sabe. Uns dizem que na Igreja de Santa Ana; outros, no cemitério dos pobres de um hospital próximo. Não houve pedra, não houve nome gravado. O homem que tornara Portugal imortal entrou na terra como entravam os indigentes, sem marca que o distinguisse dos outros.
Em 1755, o terramoto que arrasou Lisboa abateu-se também sobre a Igreja de Santa Ana. O templo ficou em ruínas. As obras de reconstrução reviraram o chão onde os mortos jaziam. Se ainda restavam ossos de Camões debaixo daquelas lajes, ficaram misturados com os de toda a gente. A cidade que o poeta cantara engolira-lhe a sepultura.
1880: a trasladação que não podia ser verificada
Em 1880, no terceiro centenário da morte, Portugal quis honrar finalmente o homem que o tornara eterno. Recolheram-se uns ossos no que restava de Santa Ana e levaram-nos, em cortejo solene, para o túmulo monumental dos Jerónimos, ao lado de Vasco da Gama.
O problema é que a própria comissão encarregada da trasladação confessou as suas dúvidas: já não era possível distinguir a sepultura do poeta de qualquer outra. Recolheu-se o que se pôde, e chamou-se-lhe Camões.
É por isso que, ainda hoje, os especialistas repetem com prudência uma frase incómoda: com grande probabilidade, os ossos que descansam nos Jerónimos pertencem a outra pessoa. O monumento é verdadeiro. A inscrição é verdadeira. O nome é verdadeiro. Só o conteúdo é incerto.
O que ficou
A 10 de junho voltam as flores ao mármore dos Jerónimos. O país recolhe-se junto ao túmulo do poeta que lhe deu a voz — o Dia de Portugal, o dia da língua, o dia da morte de Camões.
Lá dentro, alguém repousa.
Quanto a saber se é ele, o tempo levou a resposta.







