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D. Pedro V: provavelmente, o melhor governante que Portugal já teve

D. Pedro V foi rei durante seis anos, modernizou Portugal, visitou doentes durante as epidemias e morreu aos 24 anos. O melhor rei que Portugal quase teve.

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Jul 8, 2026
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D. Pedro V tinha a ideia de que um rei devia estar acessível aos seus súbditos de uma forma genuína. Por isso mandou colocar à porta do Palácio das Necessidades uma caixa verde, cuja chave ele próprio guardava, para que qualquer pessoa pudesse depositar ali queixas, pedidos ou críticas com a certeza de que chegavam directamente ao rei.

A experiência durou pouco. Em vez de queixas e pedidos, chegavam insultos. A suspeita, registada por Oliveira Martins, era que as injúrias não vinham do povo — vinham da classe política.

A caixa foi retirada. O gesto ficou.

Um rei formado para governar

D. Pedro V nasceu em 1837, filho de D. Maria II e de D. Fernando II de Saxe-Coburgo-Gotha. Quando a mãe morreu no parto do décimo primeiro filho, Pedro tinha dezasseis anos e era o herdeiro. Até à maioridade, o pai exerceu a regência.

A formação que recebeu era invulgar para a época. Alexandre Herculano — o historiador e escritor que mais fez pela modernização do pensamento português no século XIX — foi o seu tutor principal, e incutiu-lhe uma visão da governação centrada no bem comum e na responsabilidade pública. As competências técnicas e políticas foram desenvolvidas com o pai, o Rei Artista, que promovia activamente a arte e a cultura na corte portuguesa.

Aos doze anos, D. Pedro traduzia Virgílio, Tito Lívio e Cícero para português. Falava francês, alemão, inglês, grego e latim. Lia tudo — livros, revistas, publicações de economia. Quando visitou Inglaterra, Bélgica, Alemanha, Holanda, Áustria, França, Nápoles e a Santa Sé, não foram viagens de lazer: foram visitas sistemáticas a políticos, intelectuais e instituições, com o propósito explícito de aprender como se governava.

O diário que escreveu ao longo dessas viagens, os artigos que publicou em revistas, as cartas ao Conde de Lavradio e ao Príncipe Alberto de Inglaterra — tudo isso atesta uma inteligência e uma seriedade que os seus contemporâneos reconheciam como excepcionais.

O que fez em seis anos de reinado

D. Pedro V foi aclamado rei em 1855 e morreu em 1861. Seis anos. Nesse tempo: inauguraram-se os primeiros quilómetros da linha férrea do Norte; lançaram-se as primeiras linhas telegráficas; iniciou-se o primeiro cabo submarino entre Lisboa, os Açores e os Estados Unidos; fundou-se o Curso Superior de Letras, precursor do que viria a ser a Faculdade de Letras.

É um ritmo que sugere o que teria sido possível com mais tempo.

A epidemia e a caixa verde

Entre 1855 e 1856, Lisboa foi atingida por epidemias de cólera e febre amarela. Parte da população fugiu para a província. D. Pedro recusou sair da capital. Visitou hospitais, entrou nas enfermarias, conversou com os doentes. Quando percebeu que muitas crianças tinham ficado órfãs, pagou despesas do seu próprio bolso para as auxiliar.

Nas suas exéquias, o orador Alves Mendes citou palavras que o próprio rei tinha dito aos ministros durante a crise: “Diante da crise que dizima meus povos, não será meu coração que descanse, nem meu braço que deixe de trabalhar.”

Pode ser retorica post-mortem. Pode ser fiel ao original. O comportamento durante as epidemias, documentado por múltiplas fontes independentes, sugere que era ao menos coerente com o carácter que todos os que o conheceram descreveram.

D. Estefânia

A Rainha Vitória de Inglaterra, que admirava profundamente D. Pedro, procurou pessoalmente em toda a Europa uma princesa à sua altura. Encontrou D. Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen. Casaram por procuração em Berlim em abril de 1858, com a cerimónia em Lisboa em maio.

O rei apaixonou-se pela esposa. Ela por ele. Eram, pelos relatos da época, genuinamente felizes juntos.

Em julho de 1859, catorze meses depois do casamento, D. Estefânia morreu de difteria. D. Pedro não voltou a casar. Fundou um hospital com o nome dela, em Lisboa.

A morte

Em novembro de 1861, D. Pedro regressou de Vila Viçosa a Lisboa com sinais de doença. Morreu a 11 do mesmo mês, com vinte e quatro anos.

Alexandre Herculano, que o tinha formado e acompanhado ao longo de todo o reinado, chorou no funeral como uma criança — segundo os relatos da época. Para o maior historiador português do século XIX, D. Pedro V tinha “alma pura e nobreza excepcional.”

Ficou conhecido como o “Muito Amado” e como o “Esperançoso.” Morreu viúvo, sem filhos, sem ter podido mostrar o que poderia ter feito com mais tempo.

A questão que a história raramente consegue responder — o que teria sido Portugal se D. Pedro V tivesse vivido mais vinte ou trinta anos — é uma das mais tentadoras de toda a monarquia portuguesa. E uma das que ficará sempre sem resposta.

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