Quando se faz a lista dos casamentos de D. Manuel I, o padrão que emerge não é exatamente o de um rei que escolhia as esposas com normalidade.
O primeiro casamento foi com D. Isabel de Aragão — que devia ter casado com D. Afonso, filho de D. João II e herdeiro legítimo do trono, se não tivesse morrido numa queda de cavalo. D. Manuel, que herdou o trono por esse acidente, herdou também a noiva.
O segundo foi com D. Maria de Castela — irmã da primeira esposa. Com a cunhada, em suma.
O terceiro foi com D. Leonor de Habsburgo — que estava prometida ao seu próprio filho, o príncipe D. João.
A última é a mais surpreendente. E tem um desdobramento que nenhum novelista ousaria escrever sem recear que parecesse exagero.
O retrato que mudou os planos de uma casa real
O príncipe D. João, herdeiro de D. Manuel, tinha ficado comprometido com D. Leonor de Habsburgo. Era um acordo diplomático, como todos os casamentos reais da época, e D. João tinha-se apaixonado pelo retrato da prometida — prática normal num tempo em que os futuros cônjuges raramente se conheciam antes do casamento.
D. Manuel, viúvo da segunda esposa e aparentemente inconsolável a ponto de ter declarado que iria abdicar e recolher ao convento da Penha Longa, viu também um retrato de D. Leonor. E mudou de ideias — tanto sobre o convento como sobre a noiva do filho.
Casou com ela. D. Leonor tinha dezenove anos. D. Manuel tinha cinquenta e dois.
O príncipe D. João ficou sem a prometida e com uma nova madrasta, mais nova do que ele.
O enredo que veio a seguir
O casamento entre D. Manuel e D. Leonor durou três anos. D. Manuel morreu em 1521. E D. Leonor — que tinha sido prometida a D. João antes de se tornar madrasta dele — terá assumido uma relação clandestina com o enteado depois de se tornar viúva. D. João III, que entretanto herdara o trono e era já casado com D. Catarina de Áustria, seria o homem com quem D. Leonor tinha estado destinada a casar antes de o pai a reclamar para si.
Portugal ficou pequeno para esta configuração. D. Leonor acabou por casar com Francisco I, rei de França — tornando-se rainha de dois países diferentes, o que é invulgar por qualquer critério. Ficou viúva de novo, e terminou os dias em Espanha.
Um padrão nos casamentos de D. Manuel
O terceiro casamento de D. Manuel não foi o único com este tipo de complicação. Antes de se tornar rei, D. Manuel era uma figura de segundo plano — nono filho do Infante D. Fernando, sem qualquer perspectiva de chegar ao trono.
Chegou lá quando D. Afonso, filho de D. João II e herdeiro legítimo, morreu numa queda de cavalo em 1491, deixando Portugal sem sucessor. D. João II adoptou D. Manuel como filho e herdeiro.
O primeiro casamento de D. Manuel foi, portanto, com a mulher que D. Afonso ia desposar. O segundo foi com a irmã dessa mulher. O terceiro com a prometida do filho.
É um currículo matrimonial que sugere, no mínimo, que D. Manuel tratava os casamentos como instrumentos de política — mas também, pelo menos no terceiro caso, que às vezes a política e a vontade pessoal convergiam de formas que causavam constrangimento a toda a gente à volta.
D. Manuel morreu em 1521, depois de um reinado de vinte e cinco anos em que Portugal atingiu talvez o pico da sua influência global — o caminho marítimo para a Índia, o Brasil, as Molucas, o apogeu da expansão. Ficou conhecido como o Venturoso.
A vida pessoal foi, como se viu, mais complicada.






