Quase toda a gente aprendeu, na escola, que o infinitivo de um verbo — “falar”, “comer”, “partir” — nunca se conjuga. E, ainda assim, o português tem uma construção gramatical em que isso acontece: o infinitivo pessoal, uma característica rara que poucas línguas do mundo possuem.
O que é, exatamente, o infinitivo pessoal
O infinitivo pessoal é uma forma verbal exclusiva da língua portuguesa (partilhada apenas com o galego, entre as línguas mais faladas) que permite flexionar o infinitivo de um verbo consoante a pessoa gramatical — algo que, à primeira vista, parece contraditório, já que o infinitivo é normalmente definido como a forma “impessoal” e não conjugada do verbo.
Um exemplo simples: “é importante estudarmos” usa o infinitivo pessoal (“estudarmos”), flexionado na primeira pessoa do plural, em vez do infinitivo impessoal simples “estudar”.
Como se forma
O infinitivo pessoal segue as mesmas desinências dos verbos regulares na maioria das pessoas: acrescenta-se “-es” (tu), “-mos” (nós), “-des” (vós, pouco usado atualmente) e “-em” (eles/elas) ao infinitivo simples do verbo. Eu e ele/ela mantêm o infinitivo sem qualquer alteração.
Porque esta construção é tão especial
Em praticamente todas as outras línguas conhecidas, incluindo o espanhol, o francês, o inglês ou o italiano, o infinitivo é sempre uma forma fixa, sem qualquer flexão pessoal — para exprimir a mesma ideia que o português exprime com o infinitivo pessoal, estas línguas recorrem a orações subordinadas completas, com um verbo conjugado no modo conjuntivo (ou subjuntivo).
O português, ao contrário, consegue exprimir a mesma nuance com uma construção mais compacta, sem sacrificar a clareza sobre quem pratica a ação.
Quando se usa, na prática
O infinitivo pessoal aparece tipicamente depois de preposições (“antes de saíres”), em orações que expressam finalidade ou causa (“para todos perceberem”), e em construções impessoais em que é importante deixar claro quem é o sujeito da ação (“é preciso vocês chegarem cedo”).
Uma fonte de dúvidas mesmo entre falantes nativos
Apesar de ser usado naturalmente e sem esforço consciente pela maioria dos falantes nativos, decidir quando usar o infinitivo pessoal em vez do infinitivo impessoal simples — por exemplo, “é bom sair cedo” versus “é bom saíres cedo” — continua a gerar dúvidas, já que ambas as construções podem, nalguns contextos, ser gramaticalmente aceitáveis, com nuances subtis de significado.
Uma das razões pelas quais o português é considerado difícil de aprender
Segundo várias análises sobre a complexidade da língua portuguesa, a riqueza do sistema verbal — que inclui, para além do infinitivo pessoal, uma vasta gama de tempos e modos verbais, com verbos irregulares frequentes — é apontada como um dos principais obstáculos para quem aprende português como língua estrangeira já em adulto.
Uma singularidade gramatical de que poucos falantes têm consciência
A maioria dos falantes nativos de português usa o infinitivo pessoal dezenas de vezes por dia, de forma completamente automática, sem nunca ter parado para pensar que esta construção é, do ponto de vista da linguística comparada, uma verdadeira raridade — um traço gramatical que distingue o português da esmagadora maioria das outras línguas do mundo.
Fontes
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