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Monsaraz: a vila suspensa no tempo que parece ter saído de um conto medieval

Monsaraz
Monsaraz

Imagine uma vila onde o tempo parou algures no século XIV. Ruas de xisto escuro a contrastar com casas caiadas de branco, muralhas que guardam séculos de história e, ao fundo, o espelho infinito do maior lago artificial da Europa.

Não é cenário de ficção — é Monsaraz, no coração do Alentejo, e quem a visita uma vez raramente consegue ficar indiferente.

Uma fortaleza viva no topo do mundo

Encravada no alto de uma colina, a menos de vinte quilómetros da fronteira espanhola, Monsaraz é uma das mais antigas povoações de Portugal. A sua história recua à Pré-história — há vestígios de ocupação humana na região que antecedem em milénios a fundação da própria nacionalidade portuguesa.

A vila que hoje conhecemos foi ganhando forma durante a Reconquista e consolidou-se como praça-forte estratégica durante as Guerras de Restauração, no século XVII, quando as muralhas abaluartadas que ainda hoje a abraçam foram erguidas. O plano inicial previa o Forte de São Bento, dois baluartes e várias torres — uma ambição militar que explica a solidez de tudo o que ficou de pé.

A principal entrada é a Porta da Vila, flanqueada por dois torreões e encimada por um arco gótico. Sobre ele, uma lápide consagrada à Imaculada Conceição, mandada colocar em 1646 por D. João IV. Há outras três portas — d’Évora, d’Alcoba e do Buraco — cada uma com o seu próprio carácter.

O castelo e a vista que não se esquece

Mandado construir por D. Dinis no século XIV e classificado como Monumento Nacional, o castelo de Monsaraz é hoje um dos mais invulgares miradouros do país.

A partir das suas ameias, avista-se a barragem do Alqueva — o maior lago artificial da Europa, com cerca de 250 quilómetros quadrados de área — numa panorâmica que combina história medieval com uma das maiores obras de engenharia portuguesa do século XXI.

Em 2017, Monsaraz venceu a categoria «Aldeias Monumento» do concurso 7 Maravilhas de Portugal – Aldeias. O reconhecimento era mais do que merecido.

Uma vila-museu a explorar a pé

Como as ruas são estreitas e ancestrais, há um parque de estacionamento junto às muralhas — a vila visita-se obrigatoriamente a pé, sem pressa. É dessa forma que se descobre o Largo D. Nuno Álvares Pereira, onde se concentra grande parte do património arquitetónico.

A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Lagoa, construída no século XVI sobre as ruínas de uma igreja gótica destruída pela Peste Negra, guarda no seu interior o túmulo de Gomes Martins Silvestre, cavaleiro templário e primeiro alcaide de Monsaraz. A fachada em xisto regional, o painel de azulejos e a cruz da Ordem de Cristo completam um conjunto de rara elegância.

Na Travessa da Cadeia, os antigos Paços da Audiência — hoje Posto de Turismo — abrigam um fresco medieval de enorme interesse: O Bom e o Mau Juiz, uma alegoria à corrupção da justiça que atravessa séculos com uma atualidade desconcertante.

Vale ainda visitar a antiga Cisterna, que terá sido originalmente uma mesquita, a Casa da Inquisição, a Igreja de Santiago recentemente restaurada e várias ermidas dispersas pelos arredores.

Gastronomia e céus estrelados

A visita não estaria completa sem uma refeição num dos restaurantes da vila. Migas, borrego assado e os vinhos com a denominação Reserva Monsaraz são razões mais do que suficientes para sentar à mesa sem pressa.

E quando a noite cai, Monsaraz revela um último segredo: por estar integrada num território de baixa densidade populacional e longe da poluição luminosa das cidades, os seus céus são excepcionalmente limpos.

A região do Alqueva foi, aliás, certificada como Destino de Turismo de Starlight — o que significa que as estrelas aqui brilham de uma forma que a maioria de nós esqueceu que era possível.

Há lugares que se visitam e lugares que ficam. Monsaraz pertence claramente à segunda categoria.

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