Do alto das ruínas de Juromenha, no concelho do Alandroal, vê-se o rio Guadiana a cortar a paisagem ao meio. Do outro lado fica Olivença — território que foi português durante séculos e que, depois de 1801, nunca mais voltou a sê-lo. Juromenha foi devolvida a Portugal nesse ano. Olivença, não. E foi essa assimetria que condenou a aldeia a um declínio do qual nunca se recuperou.
As terras férteis que sustentavam a população de Juromenha ficavam precisamente do outro lado do rio.
De Roma aos mouros, de Geraldo Sem Pavor a D. Dinis
As primeiras muralhas de Juromenha terão sido erguidas pelos romanos. Sob domínio muçulmano, a fortaleza consolidou-se como ponto estratégico de defesa de Badajoz — uma posição que, séculos depois, continuaria a ser o que definia o lugar, apenas com as alianças invertidas.
Em 1167, Geraldo Sem Pavor conquistou Juromenha para Portugal. A vila voltou a cair em mãos muçulmanas em 1191 e foi reconquistada definitivamente em 1242 por D. Paio Peres Correia.
A partir daí, Juromenha tornou-se uma peça crucial na linha defensiva da fronteira — papel que D. Dinis reconheceu formalmente ao conceder-lhe foral em 1312.
O engenheiro que construiu a fortaleza e depois a conquistou
Durante a Guerra da Restauração, Juromenha teve um papel decisivo na resistência ao domínio filipino. E foi nesse contexto que aconteceu um dos episódios mais irónicos da sua história: Nicolau de Langres, o engenheiro que tinha ajudado a transformar o castelo numa fortaleza moderna, mais tarde integrou o exército espanhol e participou na conquista da própria fortaleza que ajudara a erguer.
É o tipo de reviravolta que a história militar produz com alguma regularidade — quem constrói as defesas conhece também as suas fraquezas, e nem sempre fica do lado que as defende.
1801: o ano que mudou tudo
A fortaleza regressou à posse portuguesa nos séculos seguintes, até ser novamente conquistada pelos espanhóis em 1801, durante a Guerra das Laranjas. Juromenha foi devolvida no acordo que se seguiu. Olivença e o território em redor, do outro lado do Guadiana, ficaram em mãos espanholas — uma situação que ainda hoje gera discussão diplomática entre os dois países.
Para Juromenha, a perda foi mais do que simbólica. As terras agrícolas mais produtivas estavam do outro lado do rio. Sem acesso a essas terras, a economia da aldeia perdeu a base que a sustentava há séculos.
O abandono que se seguiu
Com a paz definitiva entre Portugal e Espanha, a atenção dos governantes deslocou-se progressivamente para o litoral. O interior — e sobretudo as povoações raianas que tinham existido em função da fronteira e da ameaça que ela representava — deixou de ter a importância estratégica que justificara séculos de investimento.
Juromenha seguiu o destino comum a tantas vilas de fronteira: os habitantes partiram em busca de melhores condições, os edifícios começaram a desmoronar, e a aldeia ficou ao abandono.
Hoje, traços arquitetónicos e nomes tipicamente portugueses ainda são identificáveis do lado espanhol da fronteira — vestígios de uma presença portuguesa que durou tempo suficiente para deixar marca permanente, mesmo depois de o território ter mudado de mãos.
O que existe hoje
As ruínas de Juromenha oferecem uma vista ampla sobre o Guadiana e sobre Olivença do outro lado. Nos arredores, Alandroal, Borba, Redondo, Vila Viçosa e Elvas formam um conjunto de povoações alentejanas com património considerável; mais a sul, Monsaraz, Moura e Mourão completam o roteiro. A gastronomia alentejana e os vinhos da região são o complemento natural de qualquer visita a esta zona.
Existem planos para recuperar o património histórico de Juromenha e transformá-lo numa unidade turística de grande escala — um projeto que, a concretizar-se, mudaria definitivamente o carácter do lugar.
Juromenha é hoje uma relíquia — uma fortaleza que defendeu a fronteira durante séculos e que perdeu a razão de existir no momento em que a fronteira deixou de separar terras férteis de terras férteis e passou a separar apenas dois países em paz. O rio continua a cortar a paisagem ao meio. O que mudou foi tudo o resto.






