Debaixo da Baixa Pombalina, numa das zonas mais movimentadas de Lisboa, existem galerias romanas com quase dois mil anos que só podem ser visitadas seis dias por ano — três em abril, para o Dia dos Monumentos e Sítios, três em setembro, integradas nas Jornadas Europeias do Património.
Para que cada visita aconteça, os bombeiros municipais precisam primeiro de retirar a água que inunda naturalmente as galerias. É um trabalho que acontece antes de cada abertura — sem ele, simplesmente não há acesso.
Construídas no tempo de Augusto
A origem desta construção remonta ao governo do Imperador Augusto, entre os séculos I a.C. e I d.C. — período em que Lisboa, então chamada Olisipo, era uma cidade romana relevante na província da Lusitânia.
O caráter público do espaço é sugerido por uma inscrição dedicada a Esculápio, deus da medicina, hoje conservada no Museu Nacional de Arqueologia.
A função original das galerias continua envolta em alguma especulação. A teoria mais aceite, embora não totalmente consensual, é que se tratava de um criptopórtico — uma solução arquitetónica usada para suportar estruturalmente edifícios de grandes dimensões.
Nessa leitura, as galerias teriam sido construídas para sustentar o antigo Fórum de Olisipo.
Descobertas depois do terramoto de 1755
As galerias só foram descobertas em 1771, durante os trabalhos de reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755 ter destruído quase toda a cidade.
É um padrão que se repete em vários pontos arqueológicos lisboetas: a catástrofe que destruiu a cidade pombalina acabou por revelar camadas anteriores, escondidas durante séculos sob construções posteriores.
Como visitar
O acesso faz-se por um alçapão que se abre no meio da Rua da Conceição, no cruzamento com a Rua dos Correeiros.
As visitas, conduzidas por técnicos do Museu da Cidade e do Centro de Arqueologia de Lisboa, decorrem em grupo e duram entre 20 e 25 minutos — tempo suficiente para percorrer as galerias labirínticas e escuras que datam do tempo de Augusto.
Os bilhetes custam 3 euros, com compra limitada a 4 por pessoa, disponíveis nos sites do Museu de Lisboa, da Egeac ou da Câmara Municipal.
Dada a procura elevada — milhares de pessoas tentam visitar nos poucos dias de abertura — a reserva antecipada é essencial. Pede-se aos visitantes que compareçam com 15 minutos de antecedência no ponto de encontro.
As Galerias Romanas da Rua da Prata são um dos casos mais singulares de património urbano em Portugal: um monumento que existe permanentemente debaixo da cidade, mas que só é visível durante uma janela de seis dias por ano, e só depois de um esforço ativo de bombeamento de água.
É essa raridade — tanto temporal como técnica — que torna a visita memorável para quem consegue garantir bilhete.










