A Cinco Chagas saiu de Goa em 1593 com a carga acumulada de um império: especiarias, metais preciosos, tecidos de luxo, tudo o que a Carreira da Índia transportava numa das suas viagens de regresso.
Antes de chegar aos Açores, tinha já absorvido as cargas de outros navios da frota que encalharam em Moçambique — o que a tornava extraordinariamente valiosa e extraordinariamente pesada.
Não chegou a Lisboa.
O contexto que a tornou um alvo
Desde 1580, Portugal estava sob domínio espanhol, na União Ibérica. O que significava que os navios portugueses tinham passado a ser alvos legítimos para quem estava em guerra com Espanha — e Inglaterra estava.
Os mares dos Açores, passagem obrigatória da rota da Índia, tornaram-se território de caça para corsários britânicos que perceberam rapidamente o valor do que por ali passava.
Três anos antes, em 1591, a nau Madre de Deus tinha sido capturada ao largo dos Açores por uma frota inglesa — e o tesouro que transportava causou sensação quando chegou a Inglaterra.
O conde de Cumberland, entusiasmado com esse precedente, organizou em 1594 uma nova expedição com o mesmo objectivo: apanhar os navios que regressavam da Índia antes de chegarem a Lisboa.
Foi ao largo do Faial que avistaram a Cinco Chagas.
Dois dias de combate e um incêndio
O que se seguiu durou dois dias. A carraca portuguesa resistiu como pôde — era uma embarcação grande e pesada, não construída para combate ágil, mas capaz de aguentar o castigo durante tempo suficiente para tornar o ataque custoso.
Não foi suficiente. O confronto provocou um incêndio a bordo que a tripulação não conseguiu controlar. Com as chamas a alastrar, o navio teve de ser abandonado.
Os relatos da época — portugueses e ingleses — concordam no que aconteceu a seguir: os corsários impediram os resgates e executaram os náufragos que encontravam no mar. Das mais de 400 pessoas a bordo, sobreviveram treze.
O navio afundou com uma explosão — provavelmente o fogo a atingir o paiol da pólvora — e desapareceu com tudo o que transportava.
O que estava lá dentro
Estimar o valor da carga da Cinco Chagas é inevitavelmente especulativo, mas os números que circulam são consistentes entre si: algo na ordem dos 20 mil milhões de euros em valores atuais.
Uma estimativa que inclui as cargas originais do navio mais o que tinha sido transferido dos navios que encalharam em Moçambique — tornando a Cinco Chagas, naquele momento, um dos navios mais carregados que a Carreira da Índia alguma vez tinha produzido.
É o tipo de número que atrai caçadores de tesouros. Ao longo dos séculos, várias expedições tentaram localizar os restos do navio. Nenhuma o encontrou.
A posição mais aceite é a de que os destroços estão a cerca de 18 milhas náuticas a sul do canal entre o Pico e o Faial, numa zona de grande profundidade. As condições do Atlântico norte naquela área — correntes, profundidade, visibilidade — tornam a busca extremamente difícil mesmo com tecnologia moderna.
O que a história guarda
O episódio é conhecido como a Acção do Faial, e é recordado na história naval portuguesa como um dos momentos mais dramáticos da Carreira da Índia — não pela grandiosidade da batalha, mas pela desproporção entre o que estava em jogo e o desfecho: 400 pessoas, um navio carregado com a riqueza de um império, e treze sobreviventes.
A Cinco Chagas nunca mais foi encontrada. Está algures no Atlântico, a uma profundidade que ainda não foi alcançada com sucesso, com a carga intacta ou dispersa — ninguém sabe. O mar dos Açores guardou o segredo durante mais de quatro séculos, e não há razão visível para o deixar de fazer.






