Adélia Barros tinha quatro anos e nove meses nessa noite. Oitenta anos depois, ainda conseguia descrever tudo o que viu e ouviu com uma precisão que só as memórias de infância mais intensas conseguem preservar.
Era inverno, fazia frio extremo, quase ninguém saía de casa depois de anoitecer. Na lareira crepitava o lume, a mãe tinha amassado broa, Manuel Pionas — o feitor da casa, alcunhado assim com carinho — estava à lareira com a família.
Foi Manuel quem ouviu primeiro os ruídos estranhos. Um som semelhante à queima de lenha seca, vindo de fora. Abriu o postigo da porta e ficou imóvel: o céu estava vermelho da cor do fogo, com raios luminosos a desprender-se das nuvens.
Gritou para dentro: Venham ver, é o fim do Mundo.
O que aconteceu nas aldeias portuguesas nessa noite
Em segundos, os gritos espalharam-se pela aldeia. As pessoas saíram às ruas com lampiões apressadamente acesos — mas não precisaram deles, porque o céu dava luz suficiente, uma claridade avermelhada e pulsante que não se parecia com nada que alguma vez tivessem visto.
Correram para a igreja. Uma senhora de certa idade que corria ao lado de Adélia, levando pela mão uma neta da mesma idade, escorregou na calçada molhada, caiu e partiu um pé. Levantou-se de qualquer forma e chegou à igreja com os outros.
O pároco, o Senhor Padre António, tentava acalmar os paroquianos enquanto rezava com eles — explicando que aquilo era uma aurora boreal, um fenómeno que se via frequentemente nas regiões do norte do globo.
As pessoas ouviam. E continuavam a gritar.
A situação durou algumas horas. Só quando a luz do dia começou a apagar a claridade do céu é que a aldeia acalmou e as pessoas voltaram para casa.
No dia seguinte, o jornal que o pai de Adélia assinava trazia a notícia do fenómeno observado em todo o céu de Portugal e de outros países. Ela não sabia ler ainda — mas ouviu o pai ler em voz alta e tentar explicar, da melhor forma que sabia, o que tinha acontecido. Chamou-lhe, ela recorda, “o Belo Horrível.”
O que era, na realidade
Uma aurora boreal em Portugal é extraordinariamente rara, mas não impossível. O fenómeno forma-se quando partículas solares carregadas entram em contacto com a magnetosfera da Terra — normalmente canalizada para os polos, o que faz das auroras um espetáculo habitual na Escandinávia, no Canadá e no Alasca.
Mas em períodos de atividade solar intensa, a quantidade de partículas pode ser suficiente para que o fenómeno ocorra em latitudes muito mais baixas.
A aurora de 25 de janeiro de 1938 foi excepcionalmente intensa e visível em toda a Europa. No século XIX, Portugal registou pelo menos treze avistamentos documentados, entre 1817 e 1872. No século XX, há registo de dois: 1938 e 1957.
A associação a Fátima
A aurora de 1938 foi subsequentemente associada pelas aparições de Fátima, onde, em 1917, a Virgem teria dito que um grande sinal no céu precederia o início de uma segunda guerra.
O Papa Pio XI e muitos crentes identificaram a aurora de janeiro de 1938 como esse sinal. Dois meses depois, Hitler invadiu a Áustria. Em setembro de 1939, começava a Segunda Guerra Mundial.
A coincidência das datas alimentou uma narrativa que continua a circular, independentemente da explicação física do fenómeno.
O que ficou
O relato de Adélia Barros é um documento de outro tipo: não o registo do fenómeno astronómico, mas a memória de como uma comunidade rural portuguesa do final dos anos 30 processou aquela noite.
A corrida para a igreja, a senhora com o pé partido que continuou a andar, Manuel Pionas a enfornar o pão antes de ir ver o que se passava — porque o pão não esperava, mesmo que fosse o fim do mundo.
É o tipo de detalhe que os arquivos oficiais não guardam. E que uma menina de quase cinco anos guardou durante oitenta anos, sem perder nenhum pormenor.







