Em espanhol, os dias da semana chamam-se Lunes, Martes, Miércoles, Jueves, Viernes — dia da Lua, dia de Marte, dia de Mercúrio, dia de Júpiter, dia de Vénus. Em francês, Lundi, Mardi, Mercredi, Jeudi, Vendredi — exactamente o mesmo. Em italiano, igual.
Em português: segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira.
Não há deuses, não há planetas, não há mitologia romana. Há apenas números e uma palavra — feira — que neste contexto não significa mercado mas sim festa litúrgica. É um sistema completamente diferente de todos os outros, e existe apenas numa língua no mundo. A razão tem nome: São Martinho de Dume.
Como os romanos nomeavam os dias
O sistema original romano era teológico à sua maneira: cada dia da semana era consagrado a um planeta — que correspondia, por sua vez, a uma divindade. O Solis Dies era o dia do sol, principal astro do culto romano.
O Lunae Dies era o dia da Lua. Martis Dies o de Marte, deus da guerra. Mercuri Dies o de Mercúrio, patrono dos viajantes e comerciantes. Jovis Dies o de Júpiter, pai dos deuses. Veneris Dies o de Vénus — o dia em que os soldados romanos recebiam o pagamento. Saturni Dies, por fim, o dia de Saturno, dedicado ao descanso e à família.
Com a ascensão do Cristianismo e o Concílio de Niceia, o primeiro dia da semana passou a ser Dies Dominica — dia do Senhor, dedicado a Cristo — substituindo o antigo dia do sol. O sétimo dia foi associado ao Sabbatum judeu. Estas duas excepções afectaram toda a Europa cristã.
Mas os outros cinco dias continuaram a chamar-se como sempre — com os nomes dos deuses pagãos — em quase toda a parte. Quase.
O que aconteceu em Braga em 561
São Martinho de Dume chegou à Galécia por volta de 550, vindo da Panónia — a actual Hungria. Tornou-se bispo de Braga e foi a figura central da evangelização dos Suevos, o povo germânico que governava o norte da Península Ibérica naquele momento.
Em 561, presidiu ao Primeiro Concílio de Braga. Entre as decisões tomadas estava uma que parece menor mas que teria consequências linguísticas de mil e quinhentos anos: a substituição dos nomes pagãos dos dias da semana por um sistema baseado em festas litúrgicas.
A partir do Concílio, os dias passaram a ser Dominica dies, Feria Secunda, Feria Tertia, Feria Quarta, Feria Quinta, Feria Sexta, Sabbatum. Feria não significava mercado — significava festa, no sentido de celebração religiosa. Daí vem, aliás, a palavra feriado: dia de festa, originalmente litúrgica.
A decisão do Concílio de Braga não foi seguida pelos outros episcopados europeus. Ficou circunscrita ao território sob influência de Braga — que viria a ser, séculos mais tarde, o território português.
Como chegámos à segunda-feira
Com a evolução da língua, Feria Secunda foi-se contraindo e transformando. Feria tornou-se feira, e os números latinos foram-se adaptando à pronúncia portuguesa. A única excepção notável é terça-feira em vez de terceira-feira — porque o nome manteve a pronúncia latina original de Tertia, em vez de adoptar a forma portuguesa do numeral.
São Martinho tentou também mudar os nomes dos planetas conhecidos na época — Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter, Saturno — pelo mesmo raciocínio anti-pagão. O Concílio decidiu não avançar com essa mudança. Por isso, os planetas ainda têm os nomes romanos originais, mas os dias da semana que lhes correspondiam em português são apenas números.
Quando Portugal se tornou reino independente no século XII, o sistema de São Martinho tinha já mais de quinhentos anos de uso — era simplesmente a forma como as pessoas diziam os dias. Não havia razão para mudar.
E quando o português se espalhou pelo mundo com os Descobrimentos, levou consigo os dias da semana como os tinha herdado de Braga — razão pela qual também o brasileiro diz segunda-feira e não lunes.
Um bispo panônio do século VI, numa cidade do norte de Portugal, tomou uma decisão num concílio que a maioria dos europeus ignorou — e criou a única língua do mundo onde os dias da semana não têm nenhum deus romano.





