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A-dos-Ruivos: a história da aldeia portuguesa que está repleta… de ruivos

A-dos-Ruivos, no Bombarral, tem mais ruivos do que qualquer aldeia portuguesa normal. A explicação está em colonos francos que ali se instalaram no século XIII.

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Jun 29, 2026
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A-dos-Ruivos fica no concelho do Bombarral, distrito de Leiria. O nome significa, aproximadamente, “a terra dos ruivos” — e não é uma designação poética ou metafórica. Durante séculos, esta pequena aldeia teve uma concentração de pessoas ruivas suficientemente notável para que o facto ficasse gravado no próprio nome do lugar.

Em Portugal, cabelo ruivo natural não é comum — existe com mais frequência no norte do país, onde as migrações de povos celtas e germânicos deixaram mais marca genética.

Encontrar uma aldeia inteira com uma percentagem anormalmente alta de ruivos é, por qualquer critério, invulgar. A explicação está na história do seu povoamento.

Francos no Bombarral

Os registos do século XIV mencionam a presença de Francos em A-dos-Ruivos — não de passagem, mas como residentes permanentes. A hipótese mais aceite é que a aldeia tenha sido fundada por uma família de origem franca, possivelmente vinda de um dos senhorios da região: Atouguia, Lourinhã, ou Vila Verde dos Francos.

A presença franca no centro e sul de Portugal não foi acidental. Em 1199, D. Sancho I doou a Herdade da Açafa à Ordem do Templo com o objectivo específico de fixar população num território despovoado entre o Tejo e o que é hoje a fronteira alentejana com Espanha. Os Templários construíram uma fortaleza e o rei anunciou a vinda de colonos franceses para ocupar e defender o território.

É desta vaga de colonização que surgem também alguns topónimos da região que ainda existem: Arêz, de Arles; Montalvão, de Montauban; Tolosa, de Toulouse — nomes de cidades francesas trazidos pelos colonos que se instalaram no Alentejo e que ficaram gravados na paisagem que encontraram.

A genética do isolamento

Os colonos francos que se instalaram em A-dos-Ruivos trouxeram consigo o gene responsável pelo cabelo ruivo — um gene recessivo que precisa de estar presente em ambos os progenitores para se manifestar.

Numa comunidade pequena e isolada, onde as deslocações eram difíceis e as pessoas casavam dentro de um raio geográfico limitado, esse gene foi-se concentrando ao longo de gerações.

É a lógica genética do isolamento: quanto mais fechada é uma comunidade, mais os traços dos seus fundadores se fixam e amplificam na população. No caso de A-dos-Ruivos, esse traço era o cabelo ruivo — e tornou-se suficientemente dominante para dar nome à aldeia.

Hoje, com a mobilidade moderna e os casamentos fora da comunidade, o gene dissipou-se progressivamente. Mas ainda há ruivos na zona, em número que continua a ser acima da média portuguesa.

Uma aldeia com mais história do que o nome

Para além da curiosidade genética, A-dos-Ruivos tem um registo histórico mais rico do que a sua dimensão sugeriria. Os documentos do século XIV descrevem uma aldeia essencialmente agrícola, com hortas, pomares, searas e terras especialmente aptas para vinha — suficientemente valiosas para serem disputadas por instituições como o Mosteiro de Alcobaça, a Abadia de Santa Clara de Coimbra e a Igreja de Santa Maria de Óbidos.

Em 1337, a população fundou uma confraria e uma albergaria — a Albergaria e Confraria do Espírito Santo da dos Ruivos —, o que indica uma passagem significativa de peregrinos e viajantes pela zona.

Em 1527, o registo de profissões na aldeia inclui sapateiros, alfaiates, oleiros e vassalos do monarca, o que aponta para uma comunidade próspera e diversificada para a época.

No final do século XIV existia já uma Igreja dedicada a Santa Catarina, junto à qual ficava o Rossio comunal onde se realizava uma feira anual de importância regional.

No século XIX, o escritor Júlio César Machado tinha ali uma casa de campo e retratou a aldeia nos seus escritos — hoje tem um busto junto à capela local em sua homenagem.

É uma aldeia que merece mais atenção do que normalmente recebe. E que responde à sua própria pergunta antes mesmo de se a fazer: o nome diz tudo.

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