Era o domingo de Pascoela de 1506 — o domingo seguinte à Páscoa. Na capela do Convento de São Domingos, alguém reparou num brilho invulgar num crucifixo e anunciou que era um milagre. A notícia correu depressa e a igreja encheu-se de fiéis.
No meio da multidão, alguém disse em voz alta que não havia milagre nenhum — que a luz era apenas o reflexo de uma candeia acesa a incidir na madeira do crucifixo.
Esta pessoa era, segundo os relatos, um cristão-novo — um judeu convertido ao cristianismo. Foi arrastada para fora da igreja e morta pela multidão ali mesmo, na rua.
Dois frades dominicanos pegaram então numa cruz e saíram para as ruas de Lisboa a clamar por morte aos cristãos-novos.
O que se seguiu durante três dias é descrito pelos cronistas Garcia de Resende e Damião de Góis com uma clareza que não deixa margem para eufemismos: uma matança indiscriminada em que foram mortas cerca de quatro mil pessoas, a maioria de origem judaica, nas ruas e casas de Lisboa.
À multidão local juntaram-se marinheiros de navios estrangeiros ancorados no porto — gente sem laços à cidade, sem consequências a temer, disponível para a violência que encontrou.
O contexto que tornou isto possível
Lisboa, em 1506, era uma cidade sob pressão. Havia anos de seca inclemente. Havia peste. E havia, desde a viragem do século, um número muito maior de judeus — expulsos de Espanha em 1492 e de outros reinos ibéricos nos anos seguintes, forçados a converter-se ao catolicismo para permanecer em Portugal.
A conversão forçada criou uma categoria social nova e instável: os cristãos-novos. Eram cristãos formalmente, mas a sua fé era continuamente questionada e desconfiada.
Nos olhos de muitos cristãos-velhos, eram cristãos dissimulados — uma ameaça interior, uma impureza dentro da comunidade. A distinção entre “cristão verdadeiro” e “cristão de aparência” transformou-se num eixo de tensão social permanente.
Quando chegaram a seca e a peste, a lógica do bode expiatório instalou-se com a facilidade que sempre tem em momentos de crise: os infortúnios eram castigo divino, e o castigo divino precisava de uma causa. Os cristãos-novos estavam disponíveis para preencher esse papel.
O facto de o rei D. Manuel I e a corte estarem ausentes de Lisboa naquele fim-de-semana retirou o único travão que podia ter contido o que se seguiu. Numa cidade sem autoridade visível, com marinheiros estrangeiros disponíveis para a violência, e com dois frades a agitar uma cruz pelas ruas, a impunidade era total.
O fim e o castigo
A matança cessou na terça-feira — não por intervenção das autoridades, mas porque já não havia cristãos-novos em Lisboa para matar. Muitos tinham fugido, ajudados por quem se opunha ao massacre mas não tinha força para o impedir.
Quando D. Manuel I regressou e soube do que tinha acontecido, a resposta foi severa pelo padrão da época: os frades que tinham instigado a matança foram executados. Os responsáveis identificáveis foram presos e condenados. Os bens de quem tinha participado foram confiscados. A própria cidade de Lisboa foi temporariamente castigada, com alguns dos seus privilégios suspensos.
Não foi impunidade. Mas também não foi suficiente para que o massacre fosse lembrado — três décadas depois, a Inquisição foi instalada em Portugal, e a memória do que tinha acontecido em 1506 tornou-se um episódio incómodo numa narrativa que preferia não o incluir.
O esquecimento e o regresso
Durante séculos, o massacre de 1506 foi um episódio que a história oficial portuguesa tratou com pouca atenção. Só na passagem dos quinhentos anos, já no século XXI, foi erguido um memorial no local do primeiro incidente, junto ao Convento de São Domingos.
O Convento de São Domingos ainda existe, em Lisboa, restaurado depois do incêndio de 1959. Quem entra hoje não encontra nenhuma marca visível do que aconteceu ali naquele domingo de abril de 1506. A história que o lugar guarda está nas fontes, não nas paredes.
Quatro mil mortos em três dias, numa cidade que hoje é conhecida pela sua abertura e hospitalidade. É um número que merece ser lembrado — não como curiosidade histórica, mas como o tipo de coisa que acontece quando o medo, a crise e a impunidade se encontram no mesmo lugar ao mesmo tempo.






