No planalto de Carrazeda de Ansiães, em Trás-os-Montes, uma colina que não é sequer a mais alta da região acabou por concentrar cinco mil anos de presença humana contínua — desde o Calcolítico até ao século XVIII, quando a sede do concelho passou definitivamente para Carrazeda e o castelo foi progressivamente abandonado.
O que restou são duas cinturas de muralhas, ruínas de casas reconhecíveis apesar da destruição avançada, e a Igreja de São Salvador, com um Cristo em Majestade em arte românica do século XII ou XIII que ainda se encontra de pé dentro das muralhas.
A organização da vila medieval
A muralha exterior envolvia a zona residencial da vila — organizada por duas estradas principais em cruz, com outras secundárias a partir delas. O perímetro interior correspondia ao castelo propriamente dito, com torre de menagem e aparelhos militares que serviam de último reduto em caso de invasão.
Duas igrejas completavam o conjunto: São Salvador, intramuros, e São João Batista, extramuros — esta última adaptada a curral ao longo do tempo, com pouco que reste para visitar.
Ansiães reunia num mesmo espaço a função militar na alcáçova, a vida civil nas residências da cerca exterior, e a religião nos templos. Uma comunidade autossuficiente com a particularidade de ter uma organização pouco comum para a época: o alcaide era o povo, com as decisões sujeitas a debate e consenso popular.
O povo que expulsou dois senhores
Essa tradição de autogoverno manifestou-se em episódios concretos. No final da Primeira Dinastia, a família Porto Carreiro ficou com o castelo por decisão régia — e quando D. Fernando I morreu e começou a disputa com Castela, os Porto Carreiro ficaram do lado castelhano. O povo de Ansiães expulsou-os e voltou a governar-se.
D. João I não esqueceu a lealdade e concedeu privilégios à vila. Décadas depois, a família Sampaio ficou com direitos e rendas da vila, e quando o senhor tentou apoderar-se da alcaidaria para além do que os seus direitos permitiam, o povo voltou a expulsá-lo.
D. Manuel I declarou então que o castelo e a alcaidaria seriam sempre governados pela concelhia, sem entrega a um novo senhor estranho às suas gentes. Ansiães regressava à sua primeira organização.
A ironia do abandono
Foi a paz que acabou por desertificar Ansiães. Sem ameaça militar, deixou de fazer sentido viver num recinto amuralhado num local com escassez de água e exposição intensa ao vento e ao frio.
As migrações começaram para locais com melhores acessos e mais serviços — o movimento contrário ao que durante séculos tinha justificado a existência da vila amuralhada.
Em 1784, a sede do concelho passou definitivamente para Carrazeda de Ansiães. Diz-se que ainda houve resistentes que se recusaram a deixar o lugar onde as gerações anteriores tinham vivido — mas o abandono era inevitável.
O fim chegou com a destruição do pelourinho, o maior símbolo do poder local. E assim, ao fim de cinco milénios, terminou a ocupação de Ansiães.
O Castelo de Ansiães é um lugar que existiu durante cinco mil anos e foi desertificado pela ausência de necessidade — não por conquista, não por catástrofe, mas porque a paz e os acessos tornaram a colina desnecessária.
É uma das histórias de abandono mais lentas e mais completas do interior de Portugal, e as ruínas que restam documentam, por camadas, tudo o que ali aconteceu.







