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1661: quando milhares de retornados de Tânger regressaram ao Algarve

Em 1661, Portugal entregou Tânger à Inglaterra como dote de casamento de D. Catarina de Bragança. Milhares de portugueses - alguns há quatro gerações lá - vieram para o Algarve.

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Jul 11, 2026
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A entrega de Tânger à coroa britânica foi um detalhe do contrato matrimonial que uniu a princesa D. Catarina de Bragança a Carlos II de Inglaterra.

Do ponto de vista diplomático, era uma cedência razoável: Portugal precisava de aliados e Inglaterra queria um porto estratégico no estreito de Gibraltar. Do ponto de vista das pessoas que viviam em Tânger, era outra coisa.

Havia portugueses que habitavam Tânger há décadas, alguns nascidos lá, filhos e netos de quem lá tinha chegado durante a ocupação que durou quase dois séculos.

Chamá-los “retornados” — como ficaram conhecidos os que voltaram para Portugal continental — era tecnicamente impreciso: muitos nunca tinham estado no Algarve. Vieram para um lugar que era suposto ser a sua terra sem nunca lá terem vivido.

O que era Tânger portuguesa

Portugal tomou Tânger em 1471 e manteve-a durante 190 anos. A localização justificava o investimento: quem controlava Tânger controlava o fluxo de navegação no estreito de Gibraltar, interrompendo a actividade corsária islâmica que assolava a costa algarvia e criando uma plataforma logística para as conquistas africanas que ainda estavam por vir.

Mas viver em Tânger não era fácil. A cidade estava em permanente estado de guerra — ataques árabes e berberes eram uma constante ao longo de toda a ocupação portuguesa.

O quotidiano dos habitantes confinava-se à área amuralhada: saídas apenas durante o dia, numa faixa de território protegida por torres de vigia, onde o gado pastava e se recolhia lenha. Os abastecimentos essenciais chegavam por via marítima, vindos da metrópole. A cidade não se sustentava sozinha.

Para preencher este posto ingrato, a Coroa recorreu a dois tipos de recrutamento que dizem muito sobre a época: pessoas de condição social elevada eram atraídas com títulos nobres, pensões e privilégios; pessoas de condição inferior — frequentemente criminosos — viam as penas perdoadas em troca de servir na praça-forte africana. Era uma mistura humana improvável, que ao longo de gerações foi criando uma comunidade própria.

A saída de 1661

Quando Portugal cedeu Tânger à Inglaterra, as pessoas que ali viviam tiveram um curto período para deixar tudo e partir. A maioria rumou para o Algarve — o território nacional mais próximo geograficamente, a ponta sul de Portugal, do outro lado do estreito.

Chegaram às centenas, talvez aos milhares. Traziam consigo hábitos, práticas culinárias, elementos arquitectónicos e uma memória de vida em território norte-africano que não desapareceu na travessia.

Alguns dos traços que hoje associamos ao Algarve — na gastronomia, em certos elementos da arquitectura — têm origem não nos mouros que habitaram a região séculos antes, mas nestes “tangerinos” que chegaram no século XVII com a herança de quase dois séculos de vida no norte de África.

Uma história que se repetiu três séculos depois

A historiografia portuguesa tende a tratar o fluxo de retornados de 1974 — após o 25 de Abril e a descolonização — como um fenómeno sem precedente na nossa história. Não é.

Em 1661, o mesmo aconteceu em menor escala mas com a mesma lógica essencial: portugueses que tinham construído as suas vidas num território ultramarino foram obrigados a sair quando a coroa cedeu esse território a outra potência, e vieram instalar-se num país que era teoricamente o seu mas que na prática muitos não conheciam.

A diferença é que os tangerinos de 1661 ficaram tão integrados no Algarve que a sua origem se foi diluindo nas gerações seguintes. Hoje, a maioria dos algarvios não sabe que os tem como antepassados. Os vestígios estão na mesa e nas paredes — mas a memória da origem perdeu-se.

É o destino habitual das migrações bem-sucedidas: integram-se tão completamente que deixam de ser visíveis como migrações.

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