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A princesa portuguesa que encantou os espanhóis

Isabel de Portugal casou com Carlos V em 1526, governou Espanha como regente durante 13 anos, e morreu aos 35. O marido nunca mais casou. Ticiano pintou-a depois de morta.

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Jul 11, 2026
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Isabel de Portugal

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Em março de 1526, em Sevilha, Carlos V — Sacro Imperador Romano-Germânico, rei de Espanha, o homem mais poderoso do Ocidente — casou com Isabel de Portugal. Tinha chegado cansado de uma guerra com a França. Ela tinha vinte e dois anos, um dote de novecentos mil cruzados em ouro, e nunca o tinha visto.

Casaram depois da meia-noite, para que o dia litúrgico já não fosse o da Quaresma. E depois ficaram em Granada durante sete meses, no Alhambra. Foi a única lua-de-mel que o Imperador se permitiu em toda a vida.

A filha do Venturoso

Isabel nasceu em 1503, em Lisboa, no auge do reinado do pai. Manuel I era então provavelmente o monarca mais rico da Europa: o caminho para a Índia, o Brasil, as especiarias, o ouro — tudo isso entrava por Lisboa enquanto o resto do continente olhava com uma mistura de admiração e inveja que os portugueses ainda não tinham aprendido a gerir. Isabel cresceu nessa corte, entre o estilo manuelino dos Jerónimos e a Torre de Belém ainda em construção.

A mãe, Maria de Aragão, era filha dos Reis Católicos — os mesmos que tinham unificado a Espanha e financiado Colombo. Pelo lado materno, Isabel era prima directa do futuro marido. Pelo paterno, era a filha mais cobiçada da Cristandade.

Manuel I morreu em 1521. O irmão de Isabel, D. João III, sucedeu-lhe e moveu rapidamente a peça que faltava no tabuleiro europeu: ofereceu a irmã a Carlos V, com aquele dote astronómico, em troca de uma aliança que cosesse de novo as duas coroas ibéricas.

Os Habsburgo precisavam de dinheiro — as guerras na Itália tinham deixado a Coroa imperial exangue, apesar de Pavia. O ouro português pagaria os soldados. Era uma transacção de Estado.

Tornou-se, segundo as crónicas, outra coisa.

A regente que governou meia Europa

Carlos V era o homem mais poderoso do Ocidente e não tinha capital. Passava a vida em viagem — entre a Flandres, a Castela, a Itália, a Alemanha — perseguido pela Reforma Protestante, pelos turcos de Solimão e pelas dívidas. Precisava de alguém que ficasse em Espanha quando ele saía.

A partir de 1529, esse alguém foi Isabel.

Durante treze anos, em períodos longos e repetidos, foi ela quem governou Castela e Aragão como regente, com selo próprio, despachando com o Conselho Real, recebendo embaixadores, gerindo a Fazenda e a frota das Índias — num momento em que Hernán Cortés tinha submetido os Astecas e Francisco Pizarro avançava sobre o Peru.

Era a Imperatriz quem assinava as ordens para Sevilha, quem arbitrava as disputas entre os grandes, quem mediava com as Cortes castelhanas que poucos anos antes se tinham levantado em revolta.

Os embaixadores venezianos descreviam-na bela, séria, devota e capaz. Carlos, que lhe dera o cargo por necessidade, acabou por confiar-lhe matérias que não confiava a mais ninguém. As cartas entre ambos, quando ele estava na Alemanha ou em Tunes, eram de marido e de sócio ao mesmo tempo.

Sete gravidezes, três filhos

Em treze anos de casamento, Isabel teve sete gravidezes. Sobreviveram três filhos. O mais velho, nascido em Valladolid em maio de 1527, foi baptizado Filipe.

Seria um dia Filipe II de Espanha — o mesmo que em 1580 entraria em Lisboa como Filipe I de Portugal, fechando o ciclo que o casamento dos pais tinha começado. A esse desfecho, Isabel não chegaria.

Em abril de 1539, em Toledo, durante a sétima gravidez, adoeceu. O parto correu mal. A criança não vingou. Isabel não se recompôs da febre. Morreu a 1 de maio, com trinta e cinco anos.

O que Carlos fez depois

Carlos V recebeu a notícia e retirou-se para o mosteiro de La Sisla, perto de Toledo. Ficou semanas sem receber ninguém. Vestiu luto rigoroso pelo resto da vida. Nunca mais voltou a casar — apesar de ter ainda dezanove anos de reinado pela frente e de do ponto de vista dinástico poder e dever ter feito outras alianças.

Não fez.

Mandou que, à hora da sua própria morte, o seu corpo fosse depositado junto ao dela.

O cortejo e Francisco de Borja

O corpo de Isabel desceu de Toledo até Granada, ao Alhambra onde tinham sido felizes. Acompanhou o cortejo, durante todo o trajecto, um jovem fidalgo chamado Francisco de Borja, então marquês de Lombay. Em Granada, quando abriram o caixão para a identificação ritual, o rosto que Borja conhecera em vida estava irreconhecível.

A tradição jesuíta repete a história sem variantes: foi nesse momento que o marquês decidiu nunca mais servir senhor que pudesse apodrecer. Renunciou aos títulos, entrou na Companhia de Jesus, tornou-se o terceiro Geral da Ordem e, mais tarde ainda, foi canonizado. A morte de uma princesa portuguesa em Toledo deu à Igreja Católica um dos seus santos mais influentes.

O retrato que Carlos levou para o mosteiro

Em 1548, quase dez anos depois da morte de Isabel, Carlos mandou vir de Veneza o pintor Ticiano e encomendou-lhe um retrato póstumo da mulher. Ticiano nunca a tinha conhecido — trabalhou a partir de uma miniatura antiga. Saiu uma figura de vermelho e veludo, sentada à janela, com um livro de orações na mão e uma serenidade que nada tinha de cortesã.

O Imperador levou esse quadro consigo nas viagens.

Quando se retirou em 1557 para o mosteiro de Yuste, depois de abdicar e dividir o seu império entre o filho e o irmão, levou três telas. A Glória de Ticiano, um Cristo, e o retrato de Isabel.

Morreu em Yuste a 21 de setembro de 1558, com cinquenta e oito anos. Os seus restos foram trasladados, como tinha pedido, para junto dos dela — mais tarde no Escorial que Filipe II mandaria construir.

Casaram-se por contrato e por dote, numa cerimónia às três da manhã para fugir ao calendário litúrgico. Ficaram juntos, depois, por outra coisa que os documentos do reino não souberam nomear.

Em Madrid, no Prado, o retrato de Ticiano espera, no mesmo vermelho de sempre. A mulher sentada à janela era filha do Venturoso, governou meia Europa em nome de um marido que andava sempre noutro sítio, e deu à Espanha o rei que viria a ser também rei de Portugal. Em vida, ninguém em Castela lhe chamou outra coisa senão la Emperatriz.

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