Quando Filipe II de Espanha — Filipe I de Portugal — se tornou o monarca mais poderoso do mundo, herdando um império que incluía a Península Ibérica, as Américas, os Países Baixos e muito mais, precisava de uma capital digna dessa dimensão. E as opções que tinha eram quatro: Barcelona, Sevilha, Madrid e Lisboa.
Lisboa esteve na mesa.
Por que cada cidade tinha argumentos
Barcelona era improvável: dependia da Coroa de Aragão, onde a nobreza mantinha poderes e privilégios que limitariam a autoridade do rei. Filipe queria poder absoluto, não negociação permanente com fidalgos entrincheirados.
Sevilha cumpria requisitos óbvios: prosperidade, acesso ao mar, ligação directa à expansão americana através da Casa da Contratação das Índias. Era a cidade mais rica da Península e já tinha bispado, nobreza estabelecida e infra-estruturas. O problema era precisamente esse — tinha demasiada estrutura própria, demasiada gente com influência que não dependia do rei.
Lisboa tinha riqueza, tinha o maior porto do mundo, tinha a herança dos Descobrimentos e a ligação a um império que agora era também espanhol.
Mas tinha sido incorporada há pouco tempo — as Cortes de Tomar tinham sido em 1581 — e usar a capital de um reino recentemente conquistado como capital do império todo era um sinal político que Filipe não queria dar.
Madrid não tinha nada de especial — e era exactamente isso que a tornava ideal. Não tinha bispo, por isso não havia interferência religiosa. Não tinha grande nobreza estabelecida na cidade, por isso quem viesse para a corte seria cortesão dependente do rei, sem base de poder independente.
Estava no centro geográfico da Península. Tinha a Casa do Campo, grande propriedade que a Coroa adquirira por expropriação, e o Alcázar. E Filipe II tinha passado grande parte da vida em Castela e sentia-se em casa.
A decisão foi tomada em 1561: Madrid.
O rei que falava português
Filipe II não era indiferente a Portugal — era precisamente o contrário. A mãe, Isabel de Portugal, tinha falado português com ele desde criança, comia comida portuguesa, tinha como dama de companhia Leonor de Mascarenhas, portuguesa que foi responsável pelos primeiros cuidados do príncipe.
Filipe II falava português, e os relatos da época sugerem que o seu confidente mais próximo era português.
Quando foi coroado rei de Portugal nas Cortes de Tomar em 1581, depois de derrotar D. António, Prior do Crato, que disputava o trono, instalou-se em Lisboa durante cerca de três anos e governou com uma atenção aos interesses portugueses que surpreendeu muita gente.
Filipe concretizava assim, em certa medida, o sonho do seu avô materno, D. Manuel I, que tinha imaginado uma união ibérica que unisse geograficamente o que já estava unido dinasticamente.
O primeiro casamento de Filipe tinha sido com uma infanta portuguesa, D. Maria Manuela. Depois da morte da rainha, chegou perto de se casar com a duquesa de Viseu, D. Maria.
Manteve uma relação com a portuguesa Isabel de Osório, com quem teve dois filhos e a quem ofereceu um palácio em Burgos. A ligação de Filipe II a Portugal era pessoal, não apenas política.
O que teria mudado
É uma das perguntas contrafactuais mais tentadoras da história ibérica: se Filipe II tivesse escolhido Lisboa em 1561, ou se a tivesse escolhido em 1581 depois de incorporar Portugal, o que teria sido diferente?
A resposta simples é que Madrid seria hoje uma cidade menor, o Escorial provavelmente não existiria naquele sítio, e a restauração da independência portuguesa em 1640 teria sido muito mais complicada — porque uma capital conjunta cria vínculos de uma natureza diferente do que uma ocupação com capital noutro lado.
Não aconteceu. Lisboa ficou sendo uma capital importante de um reino secundário dentro do império. Madrid cresceu de uma cidade sem grande passado para a capital que é hoje. E em 1640, quando Portugal proclamou a independência, o centro de gravidade do Império estava suficientemente longe para que a separação fosse possível.
A distância foi, provavelmente, o que nos salvou.






