No cume do monte de Penamourinha, em Soutelo, a estrada sobe em primeira e segunda mudança até abrir numa cumeada com vista para os vales de Vieira do Minho. Lá em cima, encaixada sob um bloco de granito de grandes dimensões, está uma das construções religiosas mais invulgares de Portugal: o Santuário de Nossa Senhora da Lapa.
Não é uma igreja construída junto a uma rocha. É uma igreja construída dentro dela.
A lapa e o que significa
Uma lapa é uma rocha que forma uma gruta ou abrigo natural. Há lapas um pouco por todo o país, e quase todas têm algum tipo de lenda, culto ou referência religiosa associada. Não é coincidência — é continuidade.
Estes lugares eram sagrados muito antes do cristianismo. Os rituais pagãos realizados em rochas de grande dimensão faziam parte de uma relação com o território que a chegada da Igreja Católica não apagou — integrou.
A estratégia foi simples e eficaz: em vez de condenar quem continuava a ver aqueles lugares como sagrados, atribuía-se-lhes um santo de devoção, construía-se uma cruz no topo, e o lugar continuava a ser lugar de culto — desta vez dentro da nova religião.
Em Penamourinha, os motivos originais da adoração do local não são inteiramente claros. A posição no cume tem uma explicação óbvia: os lugares de culto escolhiam-se sempre o mais alto possível, próximos dos céus onde habitavam as divindades.
A rocha em si pode ter tido um simbolismo relacionado com a passagem — para chegar até ela, era necessário atravessar dois grandes penedos, e os rituais de passagem eram comuns nas práticas pagãs: da adolescência para a idade adulta, do inverno para a primavera.
A capela de 1694 e a aparição de 1805
A construção religiosa mais antiga no local data de 1694. João Gonçalves e a sua mulher Margarida da Silva mandaram construir a Capela da Senhora da Lapa aproveitando os afloramentos graníticos existentes — a rocha não foi removida nem contornada, foi incorporada como estrutura.
A fachada de cantaria em granito fecha uma cavidade natural, com os vãos de janelas e portas abertos na pedra. Uma porta em grade dá acesso ao interior, onde se podem ver inscrições gravadas no teto e um quadro com a história do santuário escrita pelo padre José Maria Machado em 1851.
Em 1805, a lenda da aparição de Nossa Senhora a uma pastorinha reuniu mais de 500 pessoas no local a 10 de junho desse ano. O abade Rodrigues Ramos ordenou a construção de um altar sob o bloco de granito e a preparação da área para receber peregrinos. A romaria anual começou nesse mesmo ano, no primeiro dia de junho.
O que se encontra hoje
O recinto distribui-se por dois patamares com coreto, instalações de apoio à romaria e fontes. Há zonas de sombra e mesas onde é possível parar. A capela em si é pequena, fria, com a humidade específica dos espaços entre rocha — o tipo de frescura que no verão surpreende.
Em dias de sol, a vista a partir da cumeada justifica a subida independentemente de qualquer motivação religiosa. Em dias de nevoeiro — frequentes nesta altitude — o monte fecha-se sobre si próprio e o santuário ganha uma atmosfera diferente, mais próxima do que ali deve ter sido antes de qualquer construção.
Pagão ou cristão, com aparição ou sem aparição, o Santuário da Lapa em Vieira do Minho é um daqueles lugares onde se percebe que o sagrado tem memória mais longa do que qualquer religião em particular. A rocha estava lá antes de tudo o resto. E provavelmente ficará depois.







