D. Dinis subiu ao trono em 1279 com dezassete anos e reinou durante quarenta e seis. Quando morreu, em 1325, Portugal tinha uma universidade, um tratado de fronteiras com Castela que ainda é essencialmente válido hoje, uma língua própria que a chancelaria régia usava em vez do latim, e um pinhal de Leiria que os séculos seguintes tratariam como herança indispensável.
As análises ao seu túmulo no Mosteiro de Odivelas revelaram um detalhe que os retratos medievais raramente comunicam com clareza: o rei tinha cabelo e barba ruiva, morreu com todos os dentes, e media cerca de 1,65 metros. Era um homem saudável que viveu até aos 63 anos numa época em que isso era considerável.
A infância na corte de Castela
Pouco se sabe da infância de D. Dinis. O que os historiadores identificam como decisivo foi uma estadia, aos dez anos, na corte do avô materno — Afonso X de Castela, rei conhecido pelos seus poemas e pelo seu amor à cultura.
É plausível que tenha sido aí que D. Dinis adquiriu a inclinação que definiria boa parte do seu reinado: a convicção de que um rei culto era um rei mais poderoso, e que a língua e a poesia eram instrumentos de autoridade tanto quanto as leis e os exércitos.
Os primeiros anos: a mãe, o irmão, e a Igreja
O início do reinado foi turbulento. A mãe, D. Beatriz de Castela, queria o estatuto de rainha consorte — D. Dinis recusou. O irmão D. Afonso pôs em causa a sua competência como rei — D. Dinis impôs a sua vontade.
A relação com a Igreja estava deteriorada há anos — o pai, D. Afonso III, tinha sido excomungado — e D. Dinis negociou durante anos com a Santa Sé para restaurar a paz.
Paralelamente, implementou inquirições ao poder da nobreza e leis de desamortização que limitavam a acumulação de terras pelas ordens religiosas. Não eram medidas populares entre quem tinha mais a perder. D. Dinis fez-as de qualquer forma.
A Rainha Santa e os filhos ilegítimos
O casamento com Isabel de Aragão foi celebrado por procuração em Barcelona em 1282, quando ela tinha dez anos. A cerimónia em Portugal realizou-se em Trancoso. Tiveram dois filhos legítimos: D. Constança e D. Afonso, o futuro Afonso IV.
D. Dinis teve também vários filhos de relações extraconjugais — um número que as crónicas registam sem grande surpresa, tratando-se de um rei medieval. O que é mais notável é que foi a rainha Isabel quem educou esses filhos.
A santidade pela qual ficaria conhecida — beatificada em 1516, canonizada em 1625 — manifestou-se ao longo de um casamento que exigiu uma paciência que poucas pessoas teriam conseguido manter.
O rei lavrador
D. Dinis ficou conhecido como o Rei Lavrador pela atenção que dedicou à terra e à agricultura. No Entre Douro e Minho, dividiu as terras em casais — unidades que viriam a dar origem a muitas das povoações atuais.
Em Trás-os-Montes, adoptou um modelo coletivista onde grupos de lavradores partilhavam encargos e infra-estruturas comuns: o forno do pão, o moinho, a guarda do rebanho. Cedeu terras a quem não tinha posses para as cultivar, criou feiras, apoiou a pesca e as atividades marítimas.
O que D. Dinis fez à língua
Em 1297, D. Dinis decretou que o galaico-português — a “língua vulgar” como se dizia então, em oposição ao latim — fosse usado na corte e passasse a chamar-se português.
Um ano antes, em 1296, a chancelaria régia tinha adoptado o português para a redacção de documentos oficiais. Passou a usar-se na poesia, nos contratos notariais, na redacção de leis.
Era uma declaração de autonomia cultural: Portugal tinha território próprio, rei próprio, e agora língua própria — diferenciada do latim eclesiástico e do galaico que partilhava com a Galiza. D. Dinis próprio escreveu em português, deixando uma obra poética extensa — cantigas de amor, de amigo, de escárnio — que o tornaram o rei português com maior produção literária conhecida.
Em 1290 fundou a primeira universidade de Portugal, inicialmente em Lisboa, depois transferida para Coimbra. Em 1297, assinou com Fernando IV de Castela o Tratado de Alcanizes, que fixava as fronteiras de Portugal numa linha que, com ajustes menores, é essencialmente a mesma que existe hoje.
Os últimos anos
Os últimos anos do reinado foram amargos. Entre 1319 e 1324, D. Dinis entrou em guerra com o próprio filho D. Afonso, que o acusava de favorecer os filhos ilegítimos em detrimento dos legítimos.
A rainha Isabel mediou a paz entre pai e filho — mais um ato de paciência e santidade prática. Mas dizem as crónicas que a relação entre o rei e a rainha nunca recuperou completamente depois desse conflito.
D. Dinis morreu em Santarém a 7 de janeiro de 1325, com 63 anos. Está sepultado em Odivelas, no mosteiro que ele próprio mandou construir.
Quarenta e seis anos de reinado, uma língua, uma universidade, um tratado de fronteiras, e uma obra poética. É um legado que resiste — inclusive na língua em que este artigo foi escrito.








Pois é pena que “na língua em que este artigo foi escrito” se notem tantos erros, tais como escrever, ora no português anterior ao acordo ortográfico de 1990 (em vigor desde 2009), ora no português posterior ao acordo. Mais grave, na última oração de “Os primeiros anos: a mãe, o irmão, e a Igreja”, “D. Dinis fez-as de qualquer forma”.
Fez-as?!
O conteúdo do artigo é interessante, mas, sendo um artigo sobre a língua deveria ser mais cuidado. Aliás, ter cuidados com a língua deve ser o normal em qualquer artigo independentemente do tema.