Na Rua do Salvador, número 26, encaixada numa parede à direita de quem sobe, há uma placa de pedra que a maioria das pessoas passa sem ver. Tem mais de trezentos anos, sobreviveu ao terramoto de 1755, e é o sinal de trânsito mais antigo que existe em Lisboa — possivelmente no mundo.
O texto que se lê é directo: “Ano de 1686. Sua Majestade ordena que os coches, seges e liteiras que vierem da Portaria do Salvador recuem para a mesma parte.”
Traduzindo para linguagem actual: quem desce perde a prioridade. Recue.
Por que razão havia necessidade disto
Lisboa em 1686 era uma capital vibrante, com uma corte activa, nobreza a circular, mercadores vindos de todo o mundo. E as ruas eram aquilo que continuam a ser em Alfama: estreitas, sinuosas, sem espaço para dois veículos passarem ao mesmo tempo.
Quando dois coches ou liteiras se encontravam a meio de uma rua estreita — cada um vindo de uma direção oposta, cada um transportando alguém que não tinha o menor interesse em ser o primeiro a recuar —, criava-se um impasse.
E os impasses na Lisboa do século XVII não se resolviam com buzinas. Resolviam-se com discussões, e as discussões resolviam-se com pancadaria, e a pancadaria resolvia-se com armas, porque a honra lavava-se com sangue e os cocheiros andavam armados.
D. Pedro II decidiu que isto tinha de acabar. Em 1668, mandou distribuir vinte e quatro placas pela cidade com regras de circulação — o equivalente a um código da estrada para a Lisboa do século XVII. Das vinte e quatro, esta é a única que sobreviveu.
O código da estrada do século XVII
A placa da Rua do Salvador estabelecia que quem descia tinha de recuar até à actual Rua de São Tomé para dar passagem a quem subia — em prática, quem ia para o castelo tinha prioridade sobre quem descia para a zona ribeirinha. Era uma regra de sentido único antes de sentidos únicos existirem.
O sistema tinha penalidades para quem não cumprisse. Cocheiros, lacaios e liteiros foram proibidos de andar armados, para reduzir a escala das inevitáveis discussões.
Quem desobedecesse às regras de circulação arriscava uma multa pesada — dois mil cruzados — e o degredo para Pernambuco, Baía ou Rio de Janeiro. Uma punição que hoje pode parecer excessiva para uma infracção de trânsito, mas que revela como o problema era encarado com seriedade.
O que sobreviveu
Vinte e três das vinte e quatro placas desapareceram — no terramoto de 1755, na reconstrução pombalina que se seguiu, na mudança permanente que a cidade fez de si própria ao longo de três séculos. Esta ficou, encaixada na parede de uma ruela que hoje é usada principalmente como atalho entre duas ruas maiores.
Quem passa não costuma reparar. A pedra tem a cor da parede, o texto precisa de atenção para ser lido, e há muita coisa para ver em Alfama. Mas está lá — uma solução de 1686 para um problema que qualquer pessoa que tente conduzir em Lisboa contemporânea reconheceria imediatamente.
O trânsito melhorou desde então. Mas não tanto quanto se poderia esperar.






