Natureza

Porque os gatos ronronam (e não é só de contentamento)

Porque os gatos ronronam, e não é só de contentamento: também ronronam com dor, medo ou durante o parto. A ciência por trás do som.

Porque os gatos ronronam (e não é só de contentamento)
Porque os gatos ronronam (e não é só de contentamento)

O gato está enrolado ao colo, relaxado, a ronronar suavemente. É a imagem que associamos automaticamente a este som — mas os gatos também ronronam assustados, feridos, e até durante o parto. Contentamento é só uma parte da história.

Como nasce o som, exatamente

O ronronar resulta da contração rápida e repetida dos músculos da laringe do gato, entre 25 e 150 vezes por segundo, tanto ao inspirar como ao expirar — uma característica praticamente única entre os sons produzidos por mamíferos.

Um estudo publicado no Journal of the Acoustical Society of America, que analisou 44 espécies de felídeos — desde gatos domésticos a chitas, pumas e servais — encontrou esta mesma gama de frequências em todas elas, sugerindo que o mecanismo é comum a toda a família.

Não é só sinal de felicidade

Vários especialistas em comportamento felino descrevem o ronronar como um mecanismo de autorregulação, semelhante a como uma pessoa pode respirar fundo perante o stress: os gatos ronronam frequentemente quando estão assustados, feridos, ou mesmo perto da morte, não apenas quando estão confortáveis.

Isto levou a comunidade científica a considerar o ronronar como um comportamento não apenas comunicativo, mas potencialmente terapêutico para o próprio gato.

Uma frequência com propriedades curativas conhecidas

A gama de frequências do ronronar — entre 25 e 150 Hz — coincide com frequências já demonstradas, noutros contextos, como benéficas para a cicatrização óssea, a redução de inflamação e a regeneração de tecidos em mamíferos.

Esta coincidência levou vários investigadores a explorar se o ronronar poderá ter, de facto, um papel ativo na recuperação física do próprio gato depois de uma lesão — uma hipótese que ainda está a ser estudada, mas que já inspira investigação sobre dispositivos médicos de vibração terapêutica para humanos.

Uma linguagem entre gato e cria

Para além da possível função curativa, o ronronar é também uma forma de comunicação: gatas usam-no para tranquilizar as crias ainda cegas e surdas nos primeiros dias de vida, e os gatinhos ronronam de volta enquanto mamam, criando um canal de comunicação silencioso entre mãe e filhotes.

Alguns gatos desenvolvem ainda o chamado “ronronar de pedido”, uma combinação de ronronar com um som mais agudo, quase um choro, especificamente para chamar a atenção dos donos — investigação da Universidade de Sussex sugere que este som específico ativa, no cérebro humano, respostas semelhantes às que temos perante o choro de um bebé.

Um som simples, um mecanismo ainda por desvendar por completo

Apesar de décadas de investigação, a ciência ainda não tem uma explicação completamente definitiva sobre o mecanismo neurológico exato por trás do ronronar — o que já se sabe, com clareza, é que este som familiar carrega muito mais significados do que o simples contentamento que lhe atribuímos instintivamente.

Sobre o autor

Fernando Alves

Fernando Alves é professor e editor, com formação em Ciências Naturais e mais de duas décadas de experiência a escrever e a ensinar. Assina na VortexMag artigos sobre natureza, viagens, história e atualidade, sempre com o mesmo cuidado de verificar cada facto antes de o publicar.