Durante mais de um século, a explicação mais repetida para as riscas da zebra foi a camuflagem: um padrão que confundiria predadores na savana. É uma boa história. O problema é que, segundo a investigação mais recente, provavelmente está errada.
Um teste feito com os olhos dos verdadeiros predadores
Um estudo publicado na revista PLOS ONE, liderado pela antropóloga biológica Amanda Melin, simulou como leões e hienas — os principais predadores das zebras — realmente veem estes padrões, usando filtros de cor que replicam a visão destes animais.
Os resultados mostraram que as riscas só se tornam visíveis a estes predadores a distâncias muito curtas: cerca de 50 metros à luz do dia, 30 metros ao entardecer, e apenas 9 metros numa noite sem lua. A estas distâncias, um predador já teria, quase de certeza, ouvido ou cheirado a zebra muito antes de a conseguir ver.
Então porque têm riscas tão marcantes?
A explicação com mais apoio científico atual está longe da imagem de perseguição dramática: as riscas parecem servir sobretudo para afastar moscas que picam, algumas das quais transmitem doenças potencialmente fatais para estes animais.
Um estudo publicado na Scientific Reports, da autoria de investigadores da Universidade de Princeton, entre outras instituições, confirmou que este efeito repelente funciona mesmo a curta distância — precisamente a distância a que as moscas atacam.
A experiência que confirmou a teoria
Investigadores da Universidade de Bristol testaram esta hipótese de forma engenhosa: cobriram cavalos com mantos com padrão de riscas de zebra, e compararam com cavalos sem qualquer padrão.
Os cavalos “disfarçados” de zebra receberam significativamente menos picadas de moscas do que os cavalos sem riscas — um resultado que reforçou a ideia de que o próprio padrão visual, e não apenas o cheiro do animal, é responsável pelo efeito repelente.
As restantes teorias não resistiram ao escrutínio
A hipótese de que as riscas ajudariam a regular a temperatura corporal, criando correntes de convecção ao longo do dorso do animal, também não encontrou apoio consistente em estudos mais recentes.
A ideia de que as riscas ajudariam a reconhecer indivíduos dentro do grupo também é considerada pouco provável: cavalos domésticos, sem qualquer padrão distintivo, conseguem perfeitamente reconhecer-se uns aos outros por outros sinais visuais e sonoros.
Um mistério ainda não fechado por completo
Vale a pena notar que a comunidade científica continua cautelosa: o mecanismo exato pelo qual o padrão de riscas confunde a visão das moscas ainda não está completamente esclarecido, e investigação recente sugere que a variação na largura das riscas entre diferentes populações de zebra pode estar associada a outras pressões evolutivas, para além apenas das moscas.
Uma lição sobre como a ciência corrige as suas próprias histórias
O caso das riscas da zebra é um bom exemplo de como uma explicação intuitiva e amplamente repetida — a camuflagem — pode ser substituída por outra menos óbvia, mas mais sólida, à medida que a experimentação avança: às vezes, a resposta certa não é a mais dramática, é apenas a que sobrevive ao teste.
Fontes
Gosta do que lê na VortexMag? Adicione-nos como fonte preferida no Google e passe a ver mais dos nossos artigos nos seus resultados de pesquisa.










