Na costa norte da ilha de São Jorge, a Fajã do Ouvidor abre-se ao mar no sopé de uma falésia com 400 metros de altura. É uma plataforma de lava solidificada ao nível do oceano — uma fajã, como se chamam estas formações específicas dos Açores — com casas, um restaurante, um café e piscinas naturais de basalto que a força do Atlântico não consegue atravessar.
A maior dessas piscinas é a Poça de Simão Dias. O contraste entre o negro do basalto e o azul do oceano é o elemento que as fotografias captam mas que in loco tem outra escala — as escarpas de basalto sobem em redor, o mar bate do outro lado, e a água dentro da poça tem uma calma que o oceano imediatamente a seguir desmente.
A fajã e o caminho que os moradores abriram
A Fajã do Ouvidor deve o nome a Valério Lopes de Azevedo, Ouvidor do Capitão Donatário e antigo proprietário das terras. Em 1948, os moradores abriram um caminho desde a vigia até à fajã — um percurso em boas condições que qualquer viatura consegue fazer.
Ao longo do caminho contam-se cerca de 25 casas antigas, das quais onze são habitadas durante todo o ano. É a única fajã da ilha que tem discoteca — um detalhe que localiza o lugar algures entre o isolamento radical e a vida comunitária que se recusa a desaparecer.
O que existe na fajã e nas suas margens
As poças naturais formaram-se nas rochas basálticas junto à costa — cavidades que a lava criou e que o mar foi polindo ao longo de séculos.
Para além da Poça de Simão Dias, há outras nas imediações, como a do Caneiro, mais frequentadas por quem procura um mergulho mais aventureiro.
A Furna do Lobo, a maior das furnas criadas pela erosão marinha na costa da fajã, tem cinquenta metros de comprimento e só é acessível por barco. No verão, cerca de 30 famílias vivem na fajã.
No inverno, fica para quem trata do gado e cultiva os terrenos — a agricultura e a pecuária que sempre sustentaram estas comunidades de difícil acesso.
Nos extremos da fajã partem percursos pedestres em diferentes direções: um leva ao alto da escarpa, com panorâmica sobre a costa norte da ilha; outro desce até à zona mais profunda, junto ao basalto submerso que a luz do mar pinta de tons amarelos.
A Fajã dos Cubres e a Caldeira do Santo Cristo
A Fajã dos Cubres fica nas imediações. Era de pesca que vivia — e ainda vive, em parte. O acesso não é simples, mas o percurso pedestre linear de 10 quilómetros que termina ali é um dos mais recompensadores da ilha, passando pela Caldeira do Santo Cristo ao longo do caminho.
A Caldeira do Santo Cristo é uma lagoa costeira separada do oceano por um cordão de areia — habitat de berbigão que os moradores exploram há gerações e que define boa parte da identidade gastronómica desta zona de São Jorge.
São Jorge não é a ilha mais visitada dos Açores — e é precisamente por isso que a Fajã do Ouvidor ainda tem a escala que tem.
A Poça de Simão Dias não tem fila de espera, a Furna do Lobo não tem placa de sinalização turística, e os onze habitantes permanentes da fajã continuam a tratar do gado no inverno quando os visitantes de verão já foram embora. Enquanto assim for, vale a viagem.






