Em 14 de maio de 1277, o Papa João XXI estava sozinho no anexo do palácio papal de Viterbo — um espaço que tinha mandado construir especificamente para poder trabalhar com sossego, longe das obrigações constantes da corte papal. O edifício ruiu. Foi soterrado, sobreviveu alguns dias com ferimentos graves, e morreu pouco depois.
Tinha sido eleito Papa menos de oito meses antes. Foi o único português a ocupar o trono de São Pedro, e morreu esmagado pela estrutura que tinha mandado erguer para escapar à própria importância do cargo.
Na época, a interpretação foi imediata: castigo divino pela arrogância de um homem que preferia os livros à humildade que o cargo papal exigia.
De Lisboa a Paris, de médico a Papa
Pedro Julião Rebolo nasceu em Lisboa, entre 1210 e 1220, e ficaria conhecido na história como Pedro Hispano. Estudou na escola episcopal de Lisboa e depois na Universidade de Paris, onde contactou com alguns dos intelectuais mais relevantes do seu tempo — São Tomás de Aquino entre eles.
Tornou-se professor na Universidade de Siena, em Itália, e construiu uma reputação como homem de ciência: escreveu tratados de medicina, lógica e filosofia, e o seu comentário à lógica de Aristóteles foi usado em universidades europeias durante séculos, traduzido para várias línguas.
(Há quem atribua estes textos a um frade dominicano espanhol com o mesmo nome — a questão da autoria nunca ficou completamente resolvida. Mas o prestígio associado ao nome Pedro Hispano impulsionou de qualquer forma a carreira eclesiástica do português.)
Subiu rapidamente na hierarquia da Igreja em Portugal — cargos em Lisboa, no Porto, em Guimarães — até ser nomeado arcebispo de Braga em 1273. A sua relação próxima com o Papa Gregório X, de quem foi médico pessoal, levou-o ao Concílio de Lyon e, eventualmente, ao colégio cardinalício.
Um homem sem linhagem a chegar ao topo
A eleição de Pedro Hispano como Papa, em setembro de 1276, foi notável precisamente por aquilo que normalmente determinava estas escolhas: ele não pertencia a nenhuma das grandes famílias nobres romanas, italianas ou francesas que tradicionalmente forneciam os ocupantes do trono papal. Chegou ao topo da Igreja Católica por mérito intelectual e proximidade pessoal com um Papa anterior — não por linhagem.
A votação que o elegeu, em Viterbo, decorreu num contexto de alguma agitação: o seu antecessor, Adriano V, tinha morrido pouco mais de um mês depois de eleito. João XXI assumiu o pontificado numa Europa fragmentada por conflitos entre reinos, com a ameaça muçulmana sempre presente nas fronteiras, e com o Papa a ocupar, na prática, a posição mais poderosa do continente — acima de reis, com autoridade para mediar conflitos entre nações inteiras.
Um Papa mais interessado em livros do que em poder
As primeiras decisões de João XXI focaram-se nas regras do conclave — a forma como os cardeais elegiam um Papa, uma questão processual que o homem de lógica que tinha sido professor de Aristóteles abordou com o rigor que se esperaria.
Dedicou-se também a questões maiores: a reconciliação com a Igreja Ortodoxa, as relações com o Império Mongol, a preparação de uma nova cruzada à Terra Santa. Mediou conflitos na Sicília, em Inglaterra, em Castela, em França, no Sacro Império.
Mas ficou claro, ao longo dos poucos meses do seu pontificado, que a sua paixão genuína permanecia nos estudos e na medicina, não na administração da Igreja.
Delegou grande parte das funções práticas no cardeal Orsini, que viria a sucedê-lo como Nicolau III — possivelmente a pessoa que mais beneficiou, em termos de carreira, da morte prematura de João XXI.
O que ficou
Pedro Hispano está sepultado na catedral de Viterbo. Dante, na Divina Comédia, colocou-o no Paraíso, junto às grandes almas da cristandade medieval — um reconhecimento literário que sobreviveu mais tempo do que o seu pontificado de oito meses.
A imagem que fica é paradoxal: o único português a chegar ao topo absoluto do poder religioso europeu morreu não em combate político, não por conspiração, mas esmagado pelo tecto de um espaço que tinha construído precisamente para se afastar das obrigações desse poder.
Um homem que preferia a lógica de Aristóteles à gestão de impérios, e que a história recorda tanto pela ascensão extraordinária como pela queda literal que a encerrou.







