O persa — ou farsi, falado por mais de 100 milhões de pessoas no Irão, no Afeganistão e no Tajiquistão — não é uma das influências mais óbvias do português. Mas está lá, escondida em palavras do uso diário, na maioria dos casos chegada através do árabe, a língua que dominou grande parte da Península Ibérica durante séculos.
Muitas destas palavras entraram no português durante a Idade Média. Outras chegaram mais tarde, através das viagens portuguesas à Índia e ao Médio Oriente.
1. Açúcar
Do árabe as-sukkar, que vem do persa šakar, por sua vez do sânscrito śárkarā. O açúcar foi um bem extremamente valioso em Portugal, sobretudo durante os Descobrimentos — e a palavra atravessou três línguas antes de chegar à nossa.
2. Laranja
Do árabe nāranj, com raiz no persa nārang. Uma curiosidade notável: em vários países, incluindo o Irão, a palavra “Portugal” tornou-se sinónimo de laranja — uma homenagem indireta ao papel português na introdução do fruto na Europa.
3. Pato
Chega ao português pelo árabe baṭṭ, com raiz no persa bat. Um exemplo simples de como até os nomes de animais comuns viajaram entre culturas distantes ao longo de séculos.
4. Xadrez
Do árabe aš-šaṭranj, adaptado do persa šatrang, que por sua vez vem do sânscrito caturaṅga. O jogo e a palavra chegaram juntos à Península Ibérica através dos árabes — um caso raro em que a etimologia conta a história da própria difusão de um jogo.
5. Cheque
A forma moderna vem do inglês check, mas a origem mais remota está no persa šāh — “rei” — que passou pelo árabe šāh e pelo francês échec. Cheque e xeque — como em xeque-mate — partilham, surpreendentemente, a mesma raiz.
6. Pijama
Do inglês pyjama, que veio do hindi pāy-jāma, derivado do persa pāy-jāma — “roupa para as pernas”. Foi nas viagens ao subcontinente indiano que portugueses e britânicos trouxeram o conceito — e a peça de roupa — para a Europa.
7. Azul
Do árabe az-zulayj, com origem provável no persa lažvard, nome de uma pedra semipreciosa de cor azul intensa. Desta mesma raiz deriva também azulejo — ligado, como seria de esperar, à cor predominante dessas peças decorativas tão portuguesas.
8. O sufixo -stão
Presente em nomes como Paquistão ou Afeganistão, vem do persa -stān, que significa “terra” ou “lugar”. Não é uma palavra isolada, mas um elemento de construção de topónimos ainda hoje ativo em vários países asiáticos.
9. Magia
Através do grego e do latim, a palavra remonta ao persa maguš, termo associado a sacerdotes e praticantes de rituais religiosos na antiga Pérsia. O sentido original tinha mais de erudição religiosa do que de truque ou ilusão.
10. Mago
Também deriva de maguš, chegado ao português via grego (magós) e latim (magus). Na tradição cristã, deu origem aos “reis magos” — mas o sentido inicial estava mais próximo de “feiticeiro” ou “sábio” do que da figura bíblica que hoje associamos à palavra.
Estas dez palavras são um testemunho de pontes linguísticas construídas ao longo de séculos entre povos geograficamente distantes. O português, sendo nosso, é também o resultado de muitos encontros — e a Pérsia antiga deixou nele uma marca que poucos suspeitariam.







