Em São Domingos de Benfica, com o Parque Florestal de Monsanto ao lado, o Palácio Fronteira está afastado do centro de Lisboa o suficiente para que a maioria dos lisboetas nunca o tenha visitado.
É, no entanto, um dos conjuntos de azulejaria do século XVII mais importantes da Europa — e praticamente o único em que os azulejos se encontram ainda no local original, incluindo ao ar livre.
A família Mascarenhas ainda vive lá. Na ala não visitável, acrescentada no século XVIII, residem os actuais herdeiros. O palácio tem a dupla condição de residência familiar e Monumento Nacional desde 1982.
A origem e o terramoto que mudou tudo
O palácio foi construído no século XVII como casa de campo e pavilhão de caça para D. João de Mascarenhas, primeiro marquês de Fronteira — título atribuído em 1670 por D. Pedro II. Nessa época, São Domingos de Benfica era campo, a três horas a cavalo do Chiado, onde ficava a residência oficial da família.
O terramoto de 1755 destruiu a casa do Chiado. A de Benfica resistiu com poucos danos. A família mudou-se para cá, acrescentou uma nova ala, fechou varandas para ganhar espaço e trabalhou os tetos em estuque branco. O que era casa de verão tornou-se residência principal.
Os azulejos – sala a sala
A Sala das Batalhas tem oito episódios das Guerras da Restauração em azulejo, com João de Mascarenhas como protagonista — uma narrativa militar em cerâmica que é simultaneamente documento histórico e autorretrato de família.
A Sala dos Painéis tem azulejos holandeses do século XVII atribuídos a Adriaen van Oort e ao seu filho Jan van Oort — os primeiros azulejos holandeses de que há notícia terem sido exportados da Holanda.
O terraço tem painéis que representam as sete artes liberais, acompanhados por estátuas gregas e um conjunto de painéis satíricos com gatos e macacos humanizados — uma iconografia incomum que contrasta com a solenidade das batalhas lá dentro.
O Tanque dos Cavaleiros tem azulejos de inspiração velasquiana e traço mais erudito. A Galeria dos Reis tem azulejos relevados de origem possivelmente espanhola. E a loiça partida após o banquete de inauguração — mandada fragmentar pelo primeiro marquês — foi usada para os embrechados da chapel, misturada com pedras e conchas.
O jardim formal e o top 10 da Condé Nast
O jardim formal, feito no século XVII à margem dos jardins italianos do período anterior, tem canteiros de buxo dominados por um lago de 48 por 18 metros, escadarias laterais e uma galeria com bustos de reis portugueses.
Foi considerado um dos 250 melhores do mundo no livro The Gardener’s Garden e entrou no top 10 da revista Condé Nast Traveler — o que explica a presença constante de visitantes estrangeiros e a ausência relativa de portugueses.
O marquês vermelho e a abertura ao público
Fernando Mascarenhas, décimo segundo marquês de Fronteira, faleceu em 2014 e ficou conhecido como o “marquês vermelho” — opositor do Estado Novo que usou o palácio para reuniões clandestinas e chegou a ser chamado à sede da PIDE.
No final dos anos 80, criou a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, que passou a gerir o espaço e a abri-lo a eventos culturais e visitas.
As visitas às salas interiores custam nove euros. O acesso ao jardim custa três. O palácio fecha de tarde para uso dos residentes — que continuam a viver, como sempre viveram, no mesmo edifício.
O Palácio Fronteira é um dos raros lugares em Lisboa onde a história não é reconstituição nem encenação. Os azulejos estão onde foram colocados há trezentos e cinquenta anos, a família que os mandou fazer ainda vive no andar de cima, e o jardim que a Condé Nast classificou no top 10 ainda tem as mesmas esculturas e o mesmo lago.
É um lugar que sobreviveu — ao terramoto, ao Estado Novo, ao turismo de massas — com a teimosia discreta de quem nunca precisou de se anunciar para existir.







