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Padre Himalaia: o português que criou a energia solar e uma máquina que fazia chover

Em 1904, Padre Himalaia apresentou em Saint Louis um concentrador solar que atingia 3.500 graus. Ganhou medalhas, recusou propostas - e a máquina desapareceu.

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Jun 2, 2026
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Padre Himalaia

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Manuel António Gomes nasceu em Arcos de Valdevez em 1868, foi ordenado padre, estudou matemática em Coimbra e medicina em Paris, tornou-se vegetariano, patenteou explosivos agrícolas, investigou minérios, vendeu patentes em Londres, anunciou uma máquina que fazia chover, viajou pela Argentina, pela China e pelo Japão, e morreu em Viana do Castelo em 1933 praticamente esquecido.

Pelo caminho, construiu um concentrador solar que a Exposição Universal de Saint Louis premiou com duas medalhas de ouro e uma de prata — e que depois desapareceu misteriosamente.

Chamavam-lhe Padre Himalaia. Pelo porte físico imponente, dizem. Mas o nome ficou sobretudo por causa da escala das ideias.

O Pirelióforo

A invenção que levou a Saint Louis em 1904 tinha um nome à altura: Pirelióforo. Era um grande concentrador solar com espelhos parabólicos que focavam a luz do sol num ponto único, atingindo temperaturas acima de 3.500 graus centígrados. Para comparação, o aço funde a cerca de 1.500 graus.

A máquina chamou a atenção de empresários norte-americanos e japoneses. Padre Himalaia recusou todas as propostas. Tentou depois obter financiamento para desenvolver uma bateria de armazenamento de energia solar — uma ideia que, em 1904, era tão prematura que ninguém sabia muito bem como levá-la a sério. Voltou a Portugal sem apoio financeiro.

O Pirelióforo desapareceu. Não há registo claro de quando, nem de como. Simplesmente deixou de existir.

A máquina que fazia chover

Em 1913, Padre Himalaia anunciou outra invenção: um canhão químico apontado às nuvens, capaz de provocar precipitação. Os testes foram feitos na Serra da Estrela e, segundo os relatos da época, produziram resultados positivos. O custo do projecto impediu que avançasse. Algumas das suas patentes — não é claro quais — terão sido usadas durante a Primeira Guerra Mundial.

A ideia de provocar chuva artificialmente não era completamente absurda: a chamada sementeira de nuvens viria a ser investigada com seriedade ao longo do século XX, e é praticada hoje em vários países. Padre Himalaia chegou lá seis décadas antes.

Um padre fora de lugar no seu tempo

O que torna a figura de Padre Himalaia difícil de catalogar é precisamente a sua dispersão. Não era apenas um inventor — era também um reformador de costumes, um defensor da alimentação saudável, um crítico do consumo excessivo de medicamentos e álcool, um praticante de hidroterapia que escrevia artigos sobre doutrina social da Igreja entre uma patente e outra.

As ideias que defendia — energias renováveis, preservação ambiental, alimentação baseada em plantas — soariam familiares em qualquer conversa do século XXI. Em Portugal, no início do século XX, tornavam-no numa figura excêntrica que o país não sabia muito bem onde colocar.

Morreu em Viana do Castelo, a trabalhar num asilo, aos 65 anos. Quase ninguém prestou atenção.

A máquina que concentrava o sol a 3.500 graus já tinha desaparecido há décadas. As patentes tinham sido vendidas. A chuva da Serra da Estrela era uma história que poucos recordavam.

Ficou o nome — Himalaia — e a sensação incómoda de que Portugal teve, em 1904, um pioneiro da energia solar que levou dois meses num navio transatlântico para ser reconhecido em Saint Louis, e voltou para casa sem que ninguém em Lisboa soubesse muito bem o que fazer com ele.

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