Na vertente ocidental da Serra da Lousã, a nove quilómetros de Miranda do Corvo, Gondramaz anuncia-se com um poema de Miguel Torga inscrito numa placa metálica na área de receção da aldeia. É um gesto que define o tom: esta é uma aldeia que se levou a sério quando decidiu renascer.
Tem sete habitantes permanentes. A requalificação foi feita com normas camarárias que exigiram a manutenção da traça original — xisto nas paredes, xisto nos telhados, e xisto no chão, trabalhado com a precisão de artesãos da serra que fizeram do pavimento uma das marcas mais reconhecíveis de Gondramaz.
A rua principal e as ruelas que nascem dela
A aldeia estrutura-se a partir de uma rua principal que segue até ao limite onde o declive permite construção. Dessa rua nascem ruelas sinuosas que se percorrem a pé — e que, ao contrário do que a escala sugere, merecem ser percorridas devagar.
O xisto do chão, bem trabalhado, permite o acesso a pessoas com mobilidade reduzida, um detalhe que a requalificação incorporou sem comprometer a identidade do conjunto.
O silêncio aqui tem textura. É o tipo de silêncio que os riachos atravessam sem quebrar — um som de fundo que se integra em vez de interromper.
O trilho do Penedo dos Corvos e o Caminho do Xisto
Para além das casas, um trilho pedestre leva ao Penedo dos Corvos, onde se encontra uma cascata encaixada na floresta de castanheiros, carvalhos e azevinhos. O Caminho do Xisto de Gondramaz segue em direção ao parque de merendas da Chapinha ao longo de um ribeiro com azenhas e cascatas — um percurso que mostra a lógica de como a água e o xisto organizaram a vida desta encosta durante séculos.
As encostas em redor têm veados com regularidade suficiente para que valha a pena caminhar em silêncio e com atenção. A fauna da Serra da Lousã beneficiou do despovoamento — menos gente, mais animais, e uma floresta que foi recuperando o que a agricultura de subsistência tinha aberto.
A requalificação e as provas de BTT
A inclusão na rede das Aldeias do Xisto trouxe visitantes que a aldeia não tinha há décadas. As provas de BTT que partem de Gondramaz ao fim de semana são o tipo de movimento que não desfigura — chegam, percorrem as encostas e partem, sem deixar nada que a aldeia não queira guardar.
A requalificação foi bem-sucedida precisamente porque não tentou transformar Gondramaz em outra coisa. Manteve a escala, manteve o xisto, manteve as sete pessoas que ficaram. O que acrescentou foi o pavimento bem trabalhado, o poema na placa e os acessos que tornam a visita possível a quem vem de fora.
A Serra da Lousã em redor
O Talasnal, Cerdeira, Candal, Aigra Nova, Pena e Comareira ficam nas imediações — cada uma com a sua lógica e o seu estado de ocupação. A Lousã tem castelo em xisto e parque biológico. O Baloiço do Trevim, no ponto mais alto da serra, é a adição mais recente ao conjunto de razões para subir.
A Praia Fluvial da Louçainha fica a vinte minutos — uma das melhores praias fluviais da região, com água limpa e sombra suficiente para tornar qualquer tarde de verão mais longa do que estava prevista.
Gondramaz tem sete habitantes, um poema de Torga e o xisto no chão que os artesãos da serra trabalharam melhor do que qualquer pavimento urbano que se conheça. A aldeia esteve quase vazia. Decidiu não continuar assim. E o que ficou da decisão ainda se percebe em cada detalhe — da placa à pedra do chão.






