A ribeira de Cortes desce a encosta em saltos — cascata, poço, cascata, poço — ao longo de um percurso que acompanha o leito desde a aldeia de Cortes do Meio até às zonas mais altas da Serra da Estrela.
Há 14 piscinas naturais ao longo deste trajeto, cada uma com o seu carácter, cada uma com a sua profundidade e o seu acesso. É um dos conjuntos de lagoas fluviais mais densos de Portugal — e continua a ser pouco conhecido fora da região da Covilhã.
A primavera é quando as cascatas têm mais força, com o degelo e as chuvas a alimentar o caudal. O verão é quando mais pessoas chegam. A água é fria em qualquer altura do ano.
Os poços, do mais acessível ao mais remoto
O percurso começa junto à aldeia, onde as placas de sinalização orientam o visitante. O Poço da Fatela é o primeiro — uma lagoa formada por uma pequena cascata, fácil de chegar, boa para um mergulho rápido. Alguns metros acima fica o Poço da Ponte Velha, pouco profundo e adequado a crianças, com zona verde ao lado para estender a toalha.
Subindo o leito, chega-se à praia fluvial do Poço da Monteira — o ponto mais desenvolvido do percurso, com quedas de água, uma lagoa de maior dimensão, bar e um centro interpretativo instalado num antigo moinho recuperado. É aqui que a ribeira tem mais infraestrutura e mais movimento.
O Poço das Azenhas fica no troço onde estavam grande parte dos moinhos de água, hoje em ruínas. A lagoa é profunda e o acesso não é fácil — é um poço para quem sabe o que está a fazer.
Antes de chegar à aldeia de Bouça — uma paragem natural para recuperar forças — encontra-se o Poço do Funil, com cascata pequena e boa sombra, e o Poço do Forno Velho, onde a lenda diz que terá sido construída a primeira casa da Bouça por um homem em fuga à justiça. A versão não é verificável, mas é o tipo de detalhe que muda a forma como se olha para um lugar.
Os poços mais vistosos – e os mais exigentes
O Poço do Combarão tem as cascatas mais impressionantes de todo o percurso. Se o objetivo é mergulhar, este é o ponto. A profundidade e a força da água tornam-no pouco adequado a crianças — mas para adultos com alguma prática em águas naturais, é o melhor da ribeira.
Seguem-se o Poço do Embude e a Penha Fundeira — esta última bonita mas pouco indicada para banhos. Mais acima, o Poço do Inferno — também chamado Penha Cimeira — fica entre duas rochas perto de um abrigo de pastores, de acesso difícil. Vale a observação, não a tentativa de descida.
Os últimos poços antes do fim do percurso — o Poço do Brejo e o Poço do Meio Quartilho — são igualmente profundos e de acesso exigente. O percurso termina no Poço da Cascata, um dos mais bonitos de toda a ribeira, e um ponto final adequado para quem chega até aqui: não é o melhor para mergulhar, mas a escala da queda de água justifica os últimos metros de caminhada.
O que saber antes de ir
O percurso completo é longo e cansativo — a ribeira sobe e o terreno vai ficando mais irregular à medida que se avança. Calçado com aderência, água suficiente e algum alimento são indispensáveis. Alguns poços não têm sinalização de acesso clara e a profundidade varia de forma imprevisível.
Cortes do Meio fica perto de Tortosendo, no concelho da Covilhã, com acesso por estrada até à aldeia. A partir daí, o percurso faz-se a pé, ao longo do leito da ribeira.
Ao fim do percurso, com a Serra da Estrela em redor e o som da água presente desde o primeiro até ao último poço, percebe-se o que torna Cortes do Meio diferente das outras atrações da serra: não é um miradouro nem um pico — é uma ribeira inteira, descida de cima a baixo, com catorze momentos distintos onde a água parou para fazer qualquer coisa de bonito antes de continuar a descer.







