No Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, e em vários museus do sul do país, existem pedras com inscrições que ninguém consegue decifrar completamente.
São estelas funerárias, na maioria, gravadas numa língua que os arqueólogos chamam escrita do sudoeste — o sistema de escrita mais antigo conhecido na Península Ibérica. Mais antigo que o latim, mais antigo que qualquer outra coisa que tenha sobrevivido neste território.
Pertencem aos Cónios. E os Cónios habitaram o Alentejo e o Algarve durante cerca de sete séculos, entre o século VIII a.C. e a chegada definitiva de Roma, sem que quase ninguém hoje saiba quem eram.
Um povo sem fortalezas, com escrita
A combinação é invulgar. A maior parte dos povos pré-romanos da Península que deixaram registos escritos eram também construtores de grandes estruturas defensivas — ópidos, castros, muralhas.
Os Cónios eram diferentes: viviam em aldeias de pedra e barro, sem grandes fortificações, organizados em tribos independentes lideradas por chefes locais. Não havia um Estado centralizado, não havia uma capital reconhecível, não havia um exército permanente.
Havia, no entanto, uma escrita. Gravada em pedra e em metal, com nomes, referências religiosas, palavras ligadas à guerra. Uma língua que os linguistas ainda debatem — com ligações possíveis a populações indo-europeias, aos antigos lígures, ou aos iberos autóctones, consoante a teoria que se seguir — e que permanece parcialmente opaca apesar de décadas de investigação.
É uma das ironias da arqueologia: um povo que não construiu muros para durar, mas que gravou palavras em pedra que resistiram três mil anos.
Fenícios, cartagineses e os lusitanos do norte
Os Cónios não viviam isolados. Comerciavam com fenícios e cartagineses, trocando metais e cerâmica por bens mediterrânicos, e mantinham contacto com os Tartessos, a civilização rica do sul da Península que floresceu e desapareceu antes do século VI a.C. Era um povo integrado nas redes do seu tempo, consciente do mundo para além das suas aldeias.
Com os lusitanos, que habitavam mais a norte, a relação era outra. A cidade cónia de Conistorgis — de localização ainda incerta, algures no sul do país — terá sido destruída num desses confrontos. Os detalhes perderam-se, mas o facto de a cidade aparecer nas fontes romanas associada à violência diz o suficiente sobre como era a vizinhança.
A religião cónia sobrevive apenas em fragmentos. Veneravam forças ligadas à natureza e à fertilidade, como quase todos os povos da Península neste período. O que é mais concreto é o que os romanos fizeram depois: alguns dos locais de culto cónios foram reutilizados pelas novas estruturas religiosas romanas.
As ruínas de Milreu, perto de Faro, e de Pisões, perto de Beja, guardam nessa sobreposição a memória de algo anterior que Roma absorveu sem nomear.
A romanização e o silêncio
A partir do século II a.C., Roma avançou pelo sul da Península com a consistência que a caracterizava. Os Cónios foram integrados progressivamente — não num momento único de conquista, mas numa absorção gradual que foi apagando a língua, os rituais, a identidade tribal.
O latim substituiu a escrita do sudoeste. As aldeias foram reorganizadas segundo o modelo romano. E os Cónios deixaram de ser Cónios para se tornarem simplesmente habitantes da Hispânia.
O que ficou são as estelas. Dezenas delas, espalhadas por museus e depositadas em campos do Alentejo e do Algarve, com inscrições que resistiram ao tempo melhor do que o povo que as gravou.
Linguistas e arqueólogos continuam a trabalhar nelas, a tentar extrair sentido de uma língua que não deixou dicionário nem gramática — apenas pedras com palavras, à espera de alguém que as consiga ler.
É um silêncio estranho, o dos Cónios. Um povo que teve o cuidado de escrever as suas coisas, e que ainda assim ficou sem voz.








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