No concelho de Góis, encostada à Serra da Lousã, Comareira é a mais pequena aldeia da rede das Aldeias do Xisto.
Não tem restaurante, não tem comércio, não tem habitantes permanentes — algumas pessoas ainda chegam no verão para passar temporadas, mas nos outros meses a aldeia pertence ao silêncio e à Rede Natura 2000, que a classifica como Sítio de Importância Comunitária pela biodiversidade que a rodeia.
O nome vem de “cômoros” — uma palavra antiga para as colinas e montes onde os habitantes cultivavam os terrenos agrícolas que ainda hoje rodeiam o núcleo de xisto.
O que existe na aldeia
As casas são de xisto com telhados de lousa e janelas coloridas — a tipologia que define todas as aldeias da rede, mas que em Comareira tem a escala mais contida de todas. Percorrem-se as ruas em poucos minutos. A lentidão não é imposta pelo percurso — é imposta pelo lugar, que convida a parar mais vezes do que a distância justificaria.
O tanque público onde se lavava a roupa e se recolhia água para as hortas ainda está lá, como peça do quotidiano que existiu e que a aldeia não teve pressa de remover.
O Ecomuseu das Tradições do Xisto, instalado numa antiga casa recuperada, reúne objetos e memórias da vida rural desta região da serra — o tipo de coleção que só faz sentido no lugar onde as coisas aconteceram.
O miradouro junto ao parque de estacionamento abre a vista sobre a Serra da Lousã, com os penedos de Góis no horizonte. É o ponto onde a escala da serra se percebe de uma vez.
Os trilhos e o que a floresta guarda
A partir de Comareira partem trilhos para Aigra Nova, Aigra Velha e Pena — outras aldeias da rede, cada uma com a sua lógica e o seu estado de ocupação.
São percursos pela serra que passam por zonas classificadas da Rede Natura 2000, onde ainda existem corços, veados, águias-reais e buxo selvagem — espécies que a proteção ambiental ajudou a manter numa região que o abandono agrícola foi transformando progressivamente em floresta densa.
Quando ir e onde ficar
A primavera e o outono têm as temperaturas e as cores certas — a serra muda completamente de aspeto entre as duas estações, e ambas têm algo que o verão seco e o inverno frio não oferecem. No inverno, o acesso pode ser difícil com neve; no verão, o risco de incêndio é uma realidade desta zona do centro de Portugal.
A Casa de Campo da Comareira tem dois quartos, sala com lareira, cozinha equipada e varanda com vista para a serra. Para quem prefere mais opções, Góis fica a 15 minutos de carro — com restaurantes que servem arroz de míscaros, cabrito assado, chanfana e bucho recheado, e doces como tigeladas, filhós e mel da região.
Comareira não tem nada que a maioria dos destinos turísticos considera indispensável — e é exatamente por isso que ainda é o que é.
Sem habitantes permanentes, sem afluência sazonal intensa, sem infraestrutura que transforme a visita numa experiência gerida. Há xisto, silêncio, um tanque público e a serra. É suficiente — e cada vez mais raro.






