Há uma expressão que os estudantes de Coimbra repetem há séculos: a cidade tem mais encanto na hora da despedida. É a única cidade de Portugal onde a partida é mais intensa do que a chegada — e essa inversão diz tudo sobre o que Coimbra faz às pessoas que a habitam.
Para quem chega como visitante, o charme é mais difícil de apanhar de uma vez. Exige tempo, disposição para se perder, e a abertura para que a cidade imponha o seu próprio ritmo em vez de se deixar percorrer em itinerário.
Pedro, Inês e a Quinta das Lágrimas
Coimbra ficou para sempre associada à história de amor mais trágica da história portuguesa. D. Pedro e Inês de Castro viveram juntos nos Paços de Santa Clara, construíram família e encontravam-se na Quinta das Lágrimas — um lugar que ainda existe e que ainda tem duas fontes com nomes que Luís de Camões imortalizou n’Os Lusíadas: a Fonte dos Amores e a Fonte das Lágrimas.
A lenda diz que os nomes não são arbitrários: na primeira encontravam-se, na segunda morreu Inês. D. Afonso IV, aproveitando a ausência do filho, deslocou-se a Coimbra e proferiu a sentença. De pouco valeram as súplicas de Inês agarrada aos filhos — os netos do próprio monarca.
Curiosamente, a Quinta das Lágrimas tem outra ligação histórica que antecede Pedro e Inês: foi a Rainha Santa Isabel quem mandou construir o Paço de Santa Clara e os seus jardins, deixando-os em herança para os futuros herdeiros da coroa. O neto D. Pedro habitou o espaço que a avó tinha construído.
A universidade e as tradições
Coimbra é universidade desde o século XIII — e é a universidade que dá à cidade grande parte do que a define. A Cabra, as Escadas Monumentais, a Latada, a Queima das Fitas, a Serenata Monumental: são rituais que atravessaram gerações de estudantes e que quem visita Coimbra encontra em camadas — nas memórias de quem ficou, nos trajes académicos que ainda circulam pelas ruas, no fado de Coimbra que tem uma forma própria de cantar diferente de Lisboa.
É um fado que se canta de pé, com rigor de postura, associado à voz masculina e ao ambiente académico — uma tradição tão específica que o fado de Coimbra e o fado de Lisboa são, na prática, géneros diferentes com o mesmo nome.
O que visitar
A Sé Velha — românica, austera, anterior à maioria dos monumentos mais conhecidos do país — fica na parte alta da cidade. A Biblioteca Joanina, com os seus tetos pintados e a talha dourada sobre fundo negro, é um dos interiores barrocos mais impressionantes de Portugal.
O Jardim Botânico, o Jardim da Manga, o Museu Nacional Machado de Castro e os Parques da Cidade completam uma cidade que pode ocupar dois ou três dias sem esgotar os motivos de paragem.
O Paço das Escolas — o palácio mais antigo de Portugal, residência de D. Afonso Henriques e hoje coração da universidade — fica no ponto mais alto da cidade, com o Mondego lá em baixo e a cidade a descer pela encosta.
É o lugar onde a história de Coimbra se lê de uma vez: a universidade, o rio, e o tempo que passou sem que ninguém tivesse sentido necessidade de mudar de sítio.
Coimbra não é uma cidade que se esgota numa visita. É uma cidade que se revisita — e que a cada vez mostra qualquer coisa diferente, consoante a estação, a hora ou o estado de espírito de quem chega.
O encanto na hora da despedida não é uma frase feita. É a descrição precisa de como a cidade funciona sobre quem a conhece bem.






