No extremo oriental da Ria Formosa, onde o sistema lagunar termina antes da fronteira espanhola, Cacela Velha debruça-se sobre a água com a aparência de um lugar que o tempo poupou.
Casas brancas, uma fortaleza do século XVI, a Igreja Matriz, o antigo cemitério transformado em espaço cultural e o miradouro que abre para o cordão dunar — tudo num espaço que se percorre em menos de meia hora.
O problema é que o mar está a escavar a base do monte onde o forte assenta. Os temporais invernais galgam a duna e as ondas chegam à base da fortaleza com uma frequência que preocupa quem acompanha o estado do edifício. A barra artificial aberta em 2010 para melhorar a circulação das águas agravou o problema em vez de o resolver.
Hisn-Kastala e os poetas árabes
Em 713, a aldeia passou para mãos muçulmanas com o nome de Hisn-Kastala ou Qastallat Dararsh — de onde deriva o nome atual. Foi terra de poetas: Ibn Darraj Al-Ostalli e Abu Al-Abdari viveram aqui, e as ruas da aldeia ainda os homenageiam. A reconquista cristã chegou em 1240, sob o comando de D. Paio Peres Correia, mestre da Ordem de Santiago.
D. Dinis concedeu foral em 1283 e Cacela foi sede de concelho durante séculos — uma importância que a dinâmica da ria sustentava, até que as mudanças na linha costeira e os ataques de piratas foram empurrando a população para o interior.
O terramoto de 1755 abalou o que restava do conjunto antigo. Vinte anos depois, o concelho foi abolido e integrado no recém-criado de Vila Real de Santo António.
O conjunto está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1996 e tem sido alvo de escavações arqueológicas nos últimos anos, coordenadas por Maria João Valente.
O forte, os viveiros e o que o temporal destruiu
Nas águas junto à fortaleza existiam viveiros de ostras — uma atividade que a Ria Formosa sustentava com a qualidade da água que a define. Um temporal, com efeitos agravados pela barra artificial de 2010, destruiu o trabalho de anos do viveirista Jorge Minhalma. O que resta são as estruturas, visíveis na baixa-mar como vestígios de uma produção que não regressou.
O forte em si ainda está de pé. Mas as ondas continuam a trabalhar a base do monte, e o futuro do edifício depende de intervenções que ainda não foram concretizadas com a urgência que o problema exige.
O miradouro e o que se vê
Do miradouro junto à igreja e ao forte, a vista sobre a Ria Formosa abre-se de um lado para os prédios de Monte Gordo e do outro para o casario de Cabanas de Tavira. Em frente, o cordão dunar — acessível a pé mesmo na maré cheia desde que a barra artificial foi aberta.
O jardim de flora algarvia, criado nos últimos anos por Teresa Patrício e outros voluntários, fica nas imediações. É uma iniciativa que diz algo sobre a aldeia — pequena, com poucos residentes permanentes, mas com pessoas que continuam a investir no que a rodeia.
A Praia da Fábrica e os arredores
Em frente a Cacela Velha, do outro lado do cordão dunar, a Praia da Fábrica já foi eleita uma das mais bonitas do mundo — acessível de barco a partir de Cacela ou a pé pela barra. Manta Rota, Monte Gordo e Tavira ficam a poucos minutos. A gastronomia da região é a do peixe e do marisco da ria, com a qualidade que a Ria Formosa sustenta.
Cacela Velha tem um problema que a maioria dos lugares turísticos não tem: o mar que a tornou importante está agora a ameaçar a fortaleza que a define. É essa tensão — entre o que a ria deu e o que o oceano está a retirar — que torna o lugar mais interessante do que qualquer aldeia simplesmente bonita.







