Em Coimbra, no ponto mais alto da cidade universitária, existe uma biblioteca que D. João V mandou construir em 1717 com a intenção declarada de criar algo magnificente. O rei ficou conhecido como grande patrono das artes e da cultura — a Biblioteca Joanina é um dos seus argumentos mais sólidos.
Antes de entrar, o pórtico com quatro colunas jónicas e o escudo real em estilo barroco estabelecem o tom. O que está dentro não desilude.
As três salas e as cores do ouro
O interior divide-se em três salas comunicantes através de arcos decorados. Em todas, as paredes estão cobertas de estantes de dois andares construídas em madeiras exóticas tropicais e revestidas de talha dourada. O que muda é o fundo sobre o qual o ouro contrasta: verde na primeira sala, vermelho na segunda, negro na terceira.
Os tetos foram pintados por Simões Ribeiro e Vicente Nunes com motivos alusivos às artes e às ciências, coroados ao centro pela figura da Sapiência Divina. É um programa decorativo que combina ostentação e intenção pedagógica — típico do reinado joanino, que não separava bem as duas coisas.
O escudo real encima cada conjunto de estantes. O ouro sobre o negro da terceira sala é o efeito mais dramático — e provavelmente o mais fotografado.
A caixa-forte dos livros
As paredes exteriores têm 2,11 metros de espessura. A porta é de madeira de teca. O interior é revestido a madeira para absorver a humidade. As condições de conservação foram pensadas desde a origem — o edifício é literalmente uma caixa-forte projetada para proteger os livros que guarda, e tem funcionado durante três séculos.
As coleções reúnem obras dos séculos XV ao XIX — medicina, geografia, história, ciências, direito civil e canónico, teologia, filosofia, estudos humanísticos. São dezenas de milhar de volumes em boas condições de conservação graças à arquitetura que os protege.
Os morcegos e as peles nas mesas
À noite, depois do fecho, uma colónia de morcegos percorre as salas alimentando-se dos insetos que poderiam danificar as páginas. As mesas ficam cobertas com peles antes do fecho — proteção contra os dejetos dos animais.
É uma solução de conservação com mais de trezentos anos de eficácia que os sistemas modernos de controlo de pragas nunca tornaram desnecessária.
O cofre e o que guarda
No cofre da biblioteca encontram-se os exemplares mais raros. Uma primeira edição de Os Lusíadas. Uma Bíblia Hebraica da segunda metade do século XV — existem 20 exemplares no mundo inteiro.
E uma Bíblia Latina das 48 linhas — chamada assim por ter exactamente 48 linhas por página — impressa em 1462 por dois sócios de Gutenberg, considerada a mais bela das primeiras quatro Bíblias impressas.
A prisão por baixo
A Biblioteca Joanina foi construída sobre uma prisão medieval que mais tarde se tornou prisão académica. Os subterrâneos ainda existem e podem ser visitados através de acessos a partir da biblioteca.
É uma sobreposição que o edifício não esconde — e que acrescenta uma camada ao conjunto que a beleza das salas principais não preparava.
A Biblioteca Joanina é uma das bibliotecas mais visitadas de Portugal e uma das mais fotografadas do mundo. A fila de espera existe. A visita é limitada no número de pessoas em simultâneo.
Nada disso é supérfluo — o espaço tem a escala que tem, e o que guarda justifica o cuidado. Os morcegos trabalham de noite, o ouro brilha de dia, e a Bíblia de Gutenberg está no cofre há trezentos anos.







