Na madrugada de 13 de outubro de 1307, os agentes do rei Filipe IV de França prenderam simultaneamente, em todo o território, os cavaleiros da Ordem do Templo. A operação tinha sido preparada em segredo durante meses — uma rusga coordenada a uma escala que a Europa medieval raramente tinha visto.
Prenderam muita gente. Mas não encontraram os navios.
A frota templária, que estava ancorada no porto de La Rochelle, desapareceu nessa mesma noite sem deixar registo. Nunca mais foi vista. Para onde foi, com o quê a bordo, e quem a comandava — nenhuma fonte da época responde. É um dos silêncios mais completos da história medieval europeia.
O rei que não obedeceu ao Papa
O processo contra os Templários foi uma construção de Filipe IV — o Belo —, que tinha dívidas enormes com a Ordem e percebia que a extinção dela resolvia vários problemas ao mesmo tempo.
O Papa Clemente V, suficientemente dependente de França para não resistir, foi empurrando na direcção que o rei queria. Em 1312, a Ordem foi formalmente extinta. Os seus bens foram entregues à Ordem do Hospital. O Grão-Mestre Jacques de Molay foi queimado em Paris em 1314.
Em Portugal, D. Dinis fez outra coisa. Recusou entregar os cavaleiros, protegeu os seus bens, e em 1318 fundou a Ordem dos Cavaleiros de Cristo — uma nova ordem que herdou o património templário em Portugal, acolheu muitos dos seus membros, adoptou uma cruz derivada da cruz templária, e ficou com uma diferença importante em relação ao original: a obediência não era ao Papa, mas ao rei de Portugal.
Se eram os mesmos Templários com outro nome ou pessoas diferentes que herdaram uma estrutura — os historiadores não são unânimes. O que é certo é que a continuidade foi suficientemente visível para que toda a Europa percebesse o que D. Dinis estava a fazer.
A Ordem que construiu o império
Nos séculos seguintes, a Ordem de Cristo tornou-se o motor institucional da expansão portuguesa. Financiou expedições, construiu estaleiros, estabeleceu escolas náuticas, produziu cartas de navegação.
O Infante D. Henrique foi Grão-Mestre da Ordem — e foi sob essa autoridade que a exploração sistemática da costa africana avançou, cabo a cabo, ao longo do século XV.
As velas das caravelas que chegaram ao Brasil em 1500 levavam a Cruz da Ordem de Cristo. Não era decoração — era a marca de quem financiava e autorizava a viagem. Vasco da Gama era membro da Ordem. Pedro Álvares Cabral também. Cristóvão Colombo, que navegou ao serviço de Castela mas era português de origem, igualmente.
A Ordem tinha mudado entretanto: os votos de pobreza e castidade tinham sido suprimidos, o que permitia que homens com família e fortuna própria integrassem as suas fileiras sem contradição. Era menos uma ordem religiosa e mais uma estrutura de poder com vocação marítima e imperial — exactamente o que Portugal precisava para o que estava a fazer.
O fio que liga La Rochelle a Belém
A ligação directa entre a frota desaparecida de La Rochelle e a marinha portuguesa que construiu o primeiro império global é uma hipótese, não uma certeza.
As fontes não dizem explicitamente que os navios templários chegaram a Portugal — dizem apenas que desapareceram, e que pouco depois D. Dinis nomeava o primeiro almirante português de que há memória, numa época em que Portugal não tinha marinha organizada.
Pode ser coincidência. Pode ser que os navios tenham ido para outro lado, ou que tenham afundado, ou que a documentação que provaria a ligação não tenha sobrevivido. A história medieval tem muitos arquivos que não existem.
O que sobreviveu foi a Cruz da Ordem de Cristo nas velas, e o império que essas velas ajudaram a construir. Quanto ao resto — à frota que desapareceu numa noite de outubro de 1307 —, o silêncio continua.
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Os Templários trouxeram com eles o Santo Graal que deu aos portugueses a força necessária para a realização dos feitos extraordinários de que apenas uma parte conhecemos.
Segundo esta tese, a frota templária teria vindo criar a marinha portuguesa em 1307 para alargar os nossos horizontes: a expansão além-mar começou mais de 1 século depois, em 1415. Considerando que navios actualmente em metal tem um vida entre 20 e 30 anos, naquela época eram feitos em madeira durariam cerca de metade, o que significa que teriam que ser todos substituídos em menos de 20 anos (se levarmos em conta que estavam todos em estado completamente novo). Aquando a constituição da nova Ordem (a de Cristo) 10 anos após 1307 estariam já estariam em pobres condições de navegabilidade. Ainda segundo a tese Manuel de Pessanha seria o primeiro almirante ignorando D. Fuas Roupinho, ainda do tempo de D. Afonso Henriques e que o antecedeu em 150 anos. Há também na argumentação de organização que aquela frota viria dar esquecimento sobre D. Dinis ser o primeiro rei dinamizador da organização do Estado, criando também a Bolsa dos Mercadores (marinha mercantil) em 1293, bem antes da prisão dos Templários, e que foi a primeira organização mutualista em Portugal e mais antigo contrato de seguro. As décadas seguintes foram sobretudo tempos de paz e é improvável que a referida frota templária tivesse sobrevivido até à batalha do Salado em 1340 nem ao cerco de Lisboa na crise dinástica 1383-85 no qual D. João de Castela trouxe uma marinha que não conseguimos repelir.
Há algum exagero e imprecisão. Vasco da Gama não pertencia à Ordem de Cristo mas sim à Ordem de Santiago até meados de 1507, quando é expulso de Sines e abandona também a Ordem de Santiago (onde chegou a ter duas comendas). Só na sua terceira viagem à Índia, já como vice-rei, é que integra a Ordem de Cristo. As alusões a que foi feito cavaleiro da O. de Cristo quando recebe a bandeira com a cruz vermelha de D. Manuel são incorretas, lembrar que Afonso de Albuquerque recebeu bandeira idêntica em cerimónia semelhante (também à partida para a índia) e sempre pertenceu apenas à Ordem de Santiago. Depois D. João II teve papel importantíssimo nos Descobrimentos e nunca foi Administrador da Ordem de Cristo (que estava na Casa dos duques de Viseu) mas sim das Ordens de Santiago e de Avis, os seus navios reais não ostentavam portanto a cruz da O.C., mas os símbolos da Coroa, e os seus navegadores eram de Santiago e de Avis. Claro que isso muda com D. Manuel I porque este era Administrador da Ordem de Cristo.