No concelho de Montalegre, dentro do Parque Nacional da Peneda-Gerês, a aldeia de Fafião é conhecida por três coisas que raramente coexistem no mesmo lugar: um poço de água verde que se tornou viral, uma tradição de caça ao lobo com armadilhas na serra, e um sistema de gado comunitário que ainda funciona.
É uma das últimas aldeias comunitárias de Portugal.
Os Fojos do Lobo
Quando os lobos abundavam no Gerês e ameaçavam os rebanhos que sustentavam as famílias de Fafião, os habitantes construíram armadilhas em locais estratégicos da serra chamadas Fojos do Lobo.
Os lobos eram atraídos com iscas — ovelhas ou cabras — e quando entravam no fojo a saída era praticamente impossível. Eram depois mortos pelos populares para controlar a população de predadores.
Com o quase desaparecimento do lobo do Gerês, esta prática deixou de ser necessária. Os fojos tornaram-se parte da memória e do interesse histórico da aldeia — hoje atraem curiosos em vez de caçadores.
A Vezeira da Rês
O maior ícone da cultura comunitária de Fafião é a Vezeira — o gado coletivo da aldeia, cujo pastor é determinado anualmente, em maio, por decisão conjunta.
Nos dias seguintes, os homens da aldeia sobem à serra para desmatá-la, reparar cabanas de pastores, limpar fornos e restaurar as mariolas. Depois, o gado sobe para as melhores pastagens de altitude, onde fica até finais de setembro.
É um sistema de organização agrícola que sobreviveu séculos porque faz sentido — nenhuma família individual tem capacidade de gerir sozinha o que a comunidade consegue gerir em conjunto.
O Poço Verde e o rio Fafião
O rio Fafião corre em estado selvagem, com poços, lagoas e pequenas cascatas que poucos conhecem para além dos moradores. A exceção é o Poço Verde — uma lagoa de água verde-esmeralda que nos últimos anos se tornou um dos pontos mais procurados do Gerês.
O acesso faz-se a pé, num percurso de 5 quilómetros ida e volta, relativamente fácil mas que exige cuidado em dias de chuva. Seguindo o curso do rio, encontram-se também as Lagoas da Ponte Pigarreira, também chamadas Poços de Fafião.
O Trilho da Vezeira e as cascatas
O Trilho da Vezeira de Fafião tem 19 quilómetros, é classificado como difícil e recomendado apenas a caminhantes experientes em boa condição física. Percorre os caminhos dos pastores e oferece paisagens que não se encontram nos trilhos mais fáceis da região.
Nas imediações ficam três das cascatas mais conhecidas do Gerês: a Fecha de Barjas — também chamada Cascata do Tahiti — a 3 quilómetros, a Cascata de Pincães a 5 quilómetros, e a Cascata de Cela Cavalos a menos de 30 minutos de carro.
O Ecomuseu do Barroso
O Ecomuseu do Barroso explica as várias vertentes da vida comunitária de Fafião e documenta porque foi exatamente esse modo de vida coletivo que permitiu sobreviver num ambiente agreste de altitude. É o contexto cultural que completa o que o Poço Verde e o Trilho da Vezeira mostram pelo terreno.
Fafião tem o Poço Verde para quem quer a fotografia, os Fojos do Lobo para quem quer a história, e a Vezeira para quem quer perceber porque esta aldeia ainda funciona como aldeia — em conjunto, por necessidade e por tradição. São três razões diferentes para ir ao mesmo lugar.






