A 900 metros de altitude, entre Seia e os picos mais altos da Serra da Estrela, Póvoa Velha tinha casas de granito fechadas, ruas em pedra sem ninguém, e o silêncio específico dos lugares que a emigração esvaziou sem que ninguém tivesse decidido abandoná-los. Foi assim durante décadas — até que nos anos 90 Ana Seara e João Trabuco se cruzaram com a aldeia.
Decidiram restaurar algumas das casas. O gesto inspirou outros. E Póvoa Velha foi voltando a ter luz nas janelas.
O que a recuperação preservou
As casas restauradas mantiveram o que as tornava o que eram — paredes em pedra, proporcões originais, lareira no interior. O conforto moderno está lá: cozinha equipada, aquecimento, cama. Mas a escala das divisões, a pedra nas paredes, o som do vento e da água nas fontes lá fora continuam a ser os mesmos de sempre.
As Casas da Ribeira são hoje o principal alojamento turístico da aldeia — a designação para o conjunto de casas recuperadas com essa lógica de preservação. Não é um hotel com receção e pequeno-almoço em buffet. É dormir dentro da aldeia, com a aldeia à porta.
O que fica à volta
Póvoa Velha não tem grandes monumentos. Tem a serra — e isso, neste caso, é suficiente.
O Covão dos Conchos fica a pouca distância — a tomada de água com a entrada circular perfurada na rocha, sobre a qual a albufeira do Vale do Rossim forma uma descarga que parece saída de outro planeta.
O Vale do Rossim, com o seu espelho de água e os lameiros de altitude, é o tipo de paisagem que a Serra da Estrela guarda longe das estradas principais. A Lapa dos Dinheiros é outro ponto de referência nas imediações — uma cascata e um vale que o turismo ainda não saturou.
No inverno, a altitude de Póvoa Velha coloca-a num ponto de partida natural para a neve. No verão, as praias fluviais e os trilhos pedestres organizam os dias de uma forma que não exige planeamento — há sempre algo a 20 minutos a pé.
As tradições que ainda se fazem
O magusto de outono junta moradores e visitantes com a informalidade das celebrações que não foram criadas para turistas. A festa da feijoca dá protagonismo ao feijão da região numa refeição coletiva que tem a qualidade específica das coisas que se fazem porque sempre se fizeram.
A transumância é evocada simbolicamente — uma lembrança de que a serra foi durante séculos um território de pastoreio de altitude antes de ser destino de turismo.
O queijo artesanal, o burel e os doces caseiros ainda se encontram na aldeia — produtos de uma economia local que a recuperação turística ajudou a manter viável.
Póvoa Velha não se visita à procura de uma atração principal. Visita-se para ficar dois ou três dias, caminhar sem destino fixo, acordar com o frio da serra e dormir com o silêncio que as aldeias de granito produzem quando não há trânsito nem vizinhos com televisão alta. Foi Ana e João que começaram. O resto veio a seguir, devagar, como as coisas que duram tendem a vir.






