Havia serpentes por toda a parte — ou pelo menos era o que os gregos pensavam. Quando os navegadores helénicos começaram a explorar a costa ocidental da Península Ibérica, por volta do século VI a.C., encontraram um povo que venerava estes animais com uma intensidade que os impressionou.
Chamaram àquelas terras Ofiússa: a terra das serpentes. E ao povo que as habitava chamaram Ofis — ou Sefes, como a historiografia portuguesa viria a registá-los.
O que é curioso é que este povo, que viveu no território que hoje é Portugal durante séculos, é hoje quase desconhecido. Falam-se muito nos lusitanos, nos romanos, nos mouros. Dos Sefes, quase ninguém ouviu falar — apesar de alguns investigadores defenderem que foram eles, e não os lusitanos, a lançar as fundações mais antigas daquilo que viria a ser o país.
Chegaram da Europa Central quando Portugal não existia
Os Sefes chegaram à Península Ibérica por volta de 900 a.C., vindos de uma região que hoje corresponde à Alemanha e à República Checa. Faziam parte da cultura de Hallstatt — uma das primeiras e mais desenvolvidas expressões da civilização celta na Europa —, e trouxeram consigo um conjunto de práticas, crenças e técnicas que iriam marcar o território durante gerações.
Quando chegaram, o litoral ocidental da Península não estava vazio. Encontraram os Estrímnios, um povo pré-celta que já ali vivia. A teoria mais aceite é a de que os Sefes os expulsaram ou absorveram, e se estabeleceram sobretudo no Alentejo e no litoral centro — precisamente as zonas onde surgiriam, séculos mais tarde, algumas das cidades mais importantes de Portugal.
E aqui está um dos dados mais fascinantes sobre este povo: foram eles, ao que tudo indica, que fundaram Olisipo. Sim, a cidade que os romanos conheceriam por esse nome e que nós chamamos Lisboa.
O sufixo –ipo que aparece naquele topónimo é de origem celta, e os investigadores encontraram-no espalhado por vários pontos do território: Colipo (Leiria), Beuipo (Alcácer do Sal), entre outros. Os romanos chegaram mais tarde, pegaram nos nomes que já existiam, e ficaram com a glória.
Castros, torques e assembleias de guerreiros
Imaginar os Sefes não é difícil se soubermos onde olhar. Viviam em castros — os mesmos povoados amuralhados que ainda hoje pontuam a paisagem do noroeste peninsular —, com casas circulares de pedra ou madeira e telhados de colmo. A vida girava em torno da terra: cultivavam cereais e legumes, criavam porcos e ovelhas, caçavam javalis e veados, pescavam nos rios e no mar.
Mas não eram apenas agricultores. Trabalhavam o metal, produziam cerâmica e tecidos, e comerciavam com fenícios e gregos que navegavam o Mediterrâneo. As suas “moedas” eram torques — anéis de ouro ou prata que serviam simultaneamente como adorno e unidade de troca. Quem usava um torque no pescoço não estava apenas a mostrar riqueza: estava a carregar a sua conta bancária.
A organização política assentava no clã e na tribo, com chefes escolhidos pela bravura ou pelo prestígio. As decisões mais importantes eram tomadas em assembleias de guerreiros e anciãos — um modelo que, por muito primitivo que possa parecer, continha o embrião de qualquer coisa que se poderia chamar democracia.
A religião era politeísta e profundamente ligada à natureza. Celebravam rituais em torno de árvores, fontes e grutas. Tinham druidas — guardiões do conhecimento e da espiritualidade —, e as serpentes ocupavam um lugar central na sua mitologia, representando sabedoria e poder, ao lado de dragões e grifos.
Um povo que desapareceu sem desaparecer
Não há um momento preciso em que os Sefes deixam de existir. A teoria mais aceite é a de que se foram fundindo com outros grupos celtas vindos da Europa Central, dando origem, progressivamente, ao povo que os romanos viriam a conhecer como lusitanos. Uma fusão lenta, não uma extinção.
Mas algo ficou. As muralhas de certos castros. Os topónimos com –ipo. Fragmentos de cerâmica e joalharia. E talvez — é uma hipótese, não uma certeza — a persistência das serpentes e dos dragões na cultura popular portuguesa, animais que atravessaram a Idade Média sem que ninguém soubesse muito bem explicar de onde tinham vindo.
Os Sefes não aparecem nos manuais escolares. Não têm estátuas nas praças. Mas há quem defenda que, quando um lisboeta olha para o rio Tejo, está a olhar para um horizonte que este povo aprendeu a ler muito antes de Roma ter decidido que aquele rio merecia um nome em latim.






