Em Ribeira de Pena, no distrito de Vila Real, o rio Poio corre num vale estreito com escarpas altas de ambos os lados. Não há trilho nas margens. O único caminho é pelo leito — entre penedos do tamanho de carros, alguns do tamanho de casas, que obrigam a trepar, contornar e saltar ao longo de um percurso que em linha reta seria curto mas que o terreno transforma em três horas de ida.
O ponto de chegada, para quem aguentar, é a cascata Cai d’Alto — 60 metros de queda, uma das mais altas de Portugal Continental. Depois disso, as escarpas fecham o vale e não há para onde continuar. Regressa-se pelo mesmo caminho.
O rio e o nome que o descreve
Poio significa socalco — e o nome é preciso. O leito desce em degraus de granito, cada bloco empurrado pelo seguinte, com lagoas a formar-se nos patamares onde a água abranda.
A água é limpa, transparente, fria mesmo em agosto. Ao longo do percurso há cascatas e poços naturais, mas nem todos são adequados a banhos — a corrente em alguns pontos é mais forte do que a superfície calma sugere.
A cascata Cai d’Alto é o destino óbvio, mas o rio justifica-se antes de lá chegar. As primeiras lagoas ficam a cerca de 200 metros do ponto de partida — acessíveis, adequadas a crianças, com a escala certa para quem não quer comprometer-se com o percurso completo.
Como chegar e por onde começar
O ponto de partida mais comum é a aldeia de Cabriz. Ao passar a aldeia encontra uma pequena ponte — estacione ali e comece a subida pelo leito. A alternativa é atravessar a ponte, continuar até uma subida íngreme em calçada empedrada e estacionar num largo lá em cima. O acesso ao rio faz-se depois pela encosta à esquerda.
A segunda opção tem uma desvantagem que convém antecipar: ao fim de seis horas de percurso, com as pernas cansadas, a subida íngreme de regresso ao carro é o tipo de surpresa que se lamenta não ter considerado antes de sair.
O que levar – e o que deixar em casa
Calçado com aderência real é o único equipamento verdadeiramente inegociável. Sandálias — mesmo as de trekking — não chegam para saltar de rocha em rocha durante horas. Botas ou sapatilhas de montanha com sola de borracha são o mínimo.
A mochila deve ser leve: comida para o dia, protetor solar, chapéu. Rede de telemóvel há em poucos pontos do percurso — em caso de acidente, pedir ajuda pode ser difícil. A água do rio é limpa o suficiente para beber, o que resolve o problema do peso das garrafas.
Verificar a meteorologia antes de sair não é precaução excessiva. Depois de dias de chuva, as rochas ficam cobertas de uma película que transforma qualquer passo descuidado num problema real, e a corrente pode aumentar de forma imprevisível.
O percurso não é adequado a crianças além das primeiras lagoas. Para quem vai com adultos sem grande condição física, o mesmo critério se aplica.
O rio Poio era conhecido principalmente pelos habitantes de Cerva e das aldeias próximas — parte das memórias de infância de quem cresceu aqui, mergulhando nas lagoas em julho.
Essa origem discreta é parte do que o lugar ainda tem: não foi descoberto depressa o suficiente para ser transformado em destino antes de ter infraestrutura para isso. A única forma de o conhecer é entrar pela água e subir. O rio não oferece atalhos.





