Se alguém perguntasse qual é o planeta mais quente do sistema solar, a resposta intuitiva seria Mercúrio — está, afinal, mais perto do Sol do que qualquer outro planeta. Está errada. O título pertence a Vénus, e a diferença nem sequer é pequena.
Um resultado que parece contradizer a lógica
Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol, atinge temperaturas diurnas de cerca de 430°C. Vénus, que orbita quase 50 milhões de quilómetros mais longe, mantém uma temperatura superficial média constante de cerca de 464°C, segundo a NASA — quente o suficiente para derreter chumbo.
Como é possível um planeta mais distante do Sol ser consistentemente mais quente?
A resposta está na atmosfera, não na distância
Mercúrio praticamente não tem atmosfera — apenas uma finíssima exosfera, incapaz de reter qualquer calor. Isto significa que, assim que o Sol se põe, o calor absorvido durante o dia escapa quase de imediato para o espaço, fazendo as temperaturas noturnas caírem para cerca de -180°C.
Vénus, pelo contrário, tem uma atmosfera extremamente densa, composta sobretudo por dióxido de carbono, com uma pressão à superfície cerca de 93 vezes superior à da Terra.
O efeito de estufa mais extremo do sistema solar
O dióxido de carbono deixa passar a luz visível do Sol, mas absorve a radiação infravermelha que a superfície aquecida do planeta tenta libertar de volta para o espaço — o calor entra, mas não consegue sair com a mesma facilidade.
Este fenómeno, conhecido como efeito de estufa, existe também na Terra, de forma moderada e essencial à vida — mas em Vénus, segundo a NASA, atingiu um nível tão extremo que os cientistas o descrevem como um efeito de estufa descontrolado.
Sem diferença entre dia e noite
A espessura da atmosfera venusiana tem ainda outro efeito notável: distribui e retém tanto calor por todo o planeta que praticamente não existe diferença de temperatura entre o dia e a noite, nem entre o equador e os polos — algo raro entre os planetas do sistema solar.
Um passado que pode ter sido muito diferente
Alguns cientistas planetários defendem que Vénus, sendo de tamanho e composição inicial muito semelhantes aos da Terra, pode ter tido oceanos de água líquida no seu passado distante.
À medida que o brilho do Sol aumentava gradualmente ao longo de milhares de milhões de anos, esses oceanos poderão ter evaporado, libertando cada vez mais vapor de água — também ele um gás com efeito de estufa — num ciclo que se autoalimentou até deixar o planeta na condição extrema em que o encontramos hoje.
Um alerta natural sobre os limites de um efeito de estufa
Vénus é, por vezes, descrito por astrónomos como o “gémeo mau” da Terra — um planeta que começou parecido com o nosso, mas cujo efeito de estufa saiu completamente de controlo. Para os cientistas que estudam as alterações climáticas na Terra, é um dos exemplos mais dramáticos, disponíveis em todo o sistema solar, de até onde este fenómeno físico pode, teoricamente, chegar.
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