“Cão” faz “cães”. “Mão” faz “mãos”. “Alemão” faz “alemães”. Três palavras terminadas exatamente da mesma forma, três plurais completamente diferentes. Porque é que o português nunca simplificou isto?
Três terminações possíveis para o mesmo som
As palavras terminadas em “-ão” podem formar o plural de três formas distintas: em “-ões” (como “camião” / “camiões”), em “-ães” (como “cão” / “cães”) e em “-ãos” (como “mão” / “mãos”) — sem que exista uma regra fonética simples que permita adivinhar qual delas se aplica a cada palavra.
Segundo gramáticos da língua portuguesa, dos três padrões, “-ões” é hoje o mais produtivo, ou seja, o que se usa por defeito em palavras novas ou de origem mais recente — enquanto “-ães” ficou reduzido a um grupo muito pequeno e fechado de palavras antigas, como “cão”, “pão”, “alemão”, “capitão” e pouco mais.
A explicação está na história, não na lógica atual
Esta variedade tem origem na evolução do próprio latim para o português: a terminação “-ão” em português corresponde, historicamente, a diferentes terminações latinas — “-anus”, “-onem”, “-anem”, entre outras — que evoluíram de forma distinta ao longo dos séculos, mas que acabaram, por coincidência sonora, a soar exatamente igual no singular.
O plural, no entanto, preservou parte dessas diferenças de origem, o que explica porque palavras com o mesmo som no singular podem ter comportamentos tão diferentes no plural.
Nem sempre há consenso
Algumas palavras aceitam mais do que uma forma de plural, dependendo da região ou do registo: “verão” pode fazer “verões” (a forma mais comum), enquanto outras palavras menos usadas do dia a dia geram hesitação genuína mesmo entre falantes nativos experientes.
Um problema conhecido de quem aprende português como língua estrangeira
Esta irregularidade é, segundo professores de português como língua estrangeira, um dos aspetos mais difíceis de memorizar para quem aprende o idioma já em adulto — ao contrário de línguas com regras de pluralização mais consistentes, o português obriga, nestes casos, a memorizar caso a caso.
Uma irregularidade que sobrevive por hábito, não por lógica
Não há nenhum esforço ativo para “corrigir” ou simplificar este sistema — as irregularidades sobrevivem precisamente porque os falantes nativos as aprendem naturalmente desde a infância, sem nunca precisarem de uma regra explícita para as usar corretamente no dia a dia.
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