Há um momento, ao entrar pela Porta da Vila, em que vale a pena virar as costas ao interior de Monsaraz e olhar para o que se deixa para trás. A planície alentejana estende-se em todas as direções, o céu ocupa metade do campo de visão, e o espelho do Alqueva aparece ao longe como uma interrupção azul na terra vermelha. É um horizonte que explica imediatamente porque é que alguém escolheu este penedo para construir uma fortaleza.
Monsaraz fica a 342 metros de altitude, sobre uma escarpa que domina o vale do Guadiana. A escolha do sítio não foi estética.
Templários, Condestável e arqueiros ingleses
A ocupação do lugar é anterior à existência de Portugal. Há certeza de que a povoação existia no período muçulmano — as primeiras fortificações deverão datar desse tempo.
Depois da conquista de Évora por Geraldo Sem Pavor, Monsaraz passou para os cristãos e foi doada à Ordem dos Templários. Quando a Ordem foi extinta, passou para a Ordem de Cristo.
Na Igreja de Santa Maria da Lagoa ainda se visita o túmulo de Gomes Martins Silvestre, cavaleiro templário e povoador de Monsaraz — uma pedra lavrada que é um dos poucos vestígios materiais dessa presença.
D. Afonso II outorgou o primeiro foral em 1276. D. Dinis reedificou o castelo e a cerca amuralhada. Em 1381, durante as guerras fernandinas, um contingente de archeiros ingleses que vinha em auxílio do rei português revelou-se, nas palavras dos cronistas, “bastante imprevisível” — e saqueou a vila que devia defender. Quatro anos depois, D. João de Castela ocupou-a. Antes da batalha de Aljubarrota, Nuno Álvares Pereira recuperou-a e D. João I ofereceu-lha como recompensa.
As muralhas que tornaram Monsaraz inexpugnável
Com a Restauração de 1640, Monsaraz recebeu uma nova cintura abaluartada. Os trabalhos foram dirigidos inicialmente pelo francês Nicolau de Langres e pelo engenheiro Jean Gillot, terminados pelos portugueses Luís Serrão Pimentel, Diogo Osório e Francisco Osório. O resultado foi uma praça quase inexpugnável — os assaltos falhados durante as Guerras da Restauração e da Sucessão de Espanha confirmaram-no.
As quatro portas de acesso têm características distintas. A Porta da Vila, a principal, está flanqueada por dois torreões semicilíndricos com uma lápide à Imaculada Conceição mandada erigir por D. João IV em 1646. A Porta d’Évora, a norte, tem arco gótico e cubelo de proteção. As portas d’Alcoba e do Buraco são de arco pleno.
O castelo, a praça de armas e os touros
O castelo foi construído por D. Dinis no século XIV e é Monumento Nacional. Depois da desativação militar em 1830, a antiga praça de armas passou a servir de praça de touros — um reaproveitamento que diz algo sobre a capacidade das comunidades de encontrar utilidade nos espaços que o tempo libertou de funções originais. Durante as festas em honra do Senhor Jesus dos Passos, a tradição mantém-se.
Do alto do castelo, a vista sobre a albufeira do Alqueva — o maior lago artificial da Europa — abre-se com uma amplitude que nenhuma fotografia resolve completamente. O lago ocupa um território que antes eram campos, quintas e aldeias, e essa escala só se percebe daqui em cima.
O que mais visitar
Os Antigos Paços da Audiência, do século XIV-XVI, e a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Lagoa, do século XVI-XVII, completam o centro histórico.
Em julho, o programa Monsaraz Museu Aberto transforma a vila num palco de artesanato, gastronomia e espetáculos culturais durante semanas — o momento do ano com maior afluência e maior diversidade de experiências.
Ao entardecer, quando a luz rasante apanha a cal branca das fachadas e o Alqueva fica cor de cobre ao fundo, Monsaraz tem a aparência de um lugar que nunca precisou de ser descoberto — porque nunca deixou de existir. As muralhas resistiram a assaltos, a guerras e ao turismo. Continuam de pé, com as portas abertas, à espera de quem vira as costas à entrada e olha primeiro para a planície.







