No Douro, no ponto onde o rio Paiva desagua e os distritos do Porto, Viseu e Aveiro se encontram, existe uma pequena ilha de 1400 metros quadrados e 29 metros de altitude. Chama-se Ilha dos Amores — nome popular — e Ilha do Castelo — nome oficial, que terá dado origem ao próprio nome do concelho onde fica: Castelo de Paiva.
Formou-se com a subida do nível das águas há séculos, tem ruínas de um castelo do século XII e vestígios de uma ermida dedicada a São Pedro. Chegou-se lá de barco — e só assim se chega.
O castelo, a ermida e a vista
As ruínas da estrutura militar medieval são o vestígio mais concreto de que esta posição no cruzamento de dois rios teve importância estratégica. Um castelo no século XII neste ponto controlava simultaneamente a navegação no Douro e a confluência com o Paiva — uma posição que nenhum comandante deixaria sem guarnição.
Os vestígios da ermida de São Pedro estão também presentes, mais discretos do que as ruínas militares, mas suficientes para sugerir que a ilha teve vida religiosa para além da função defensiva.
Do ponto mais alto da ilha, a vista sobre a confluência dos dois rios e as margens dos três distritos em redor tem a amplitude que a posição geográfica promete.
A lenda
A história que circula sobre a ilha tem a estrutura de um romance medieval com final trágico. Uma fidalga e o filho de um lavrador apaixonaram-se — um amor que as diferenças de classe tornavam impossível.
Quando o pai da jovem a proibiu de o ver e a prometeu a outro fidalgo, o rapaz matou o pai e atirou-o ao rio para não haver provas. Escondeu-se na ilha durante anos.
Quando finalmente foi buscar a amada para viverem ali juntos, uma tempestade engoliu a barca com os dois. A tempestade, diz a lenda, foi o espírito do pai a vingar-se.
É o tipo de narrativa que os lugares com ruínas medievais e nomes românticos tendem a acumular — improvável na origem, persistente na transmissão.
Como chegar e o que existe na ilha
As praias fluviais de Bitetos, na margem norte em Marco de Canaveses, e do Castelo, na margem sul, são os pontos de partida para barco até à ilha. Ambas têm pequenos cais para embarcações. A ilha também tem cais próprio. A travessia a nado não é recomendada pela profundidade do rio nesta zona.
Na ilha há mesas de piquenique dispersas pela vegetação — carvalhos, pinheiros, oliveiras, freixos, amieiros e juncos num estado selvagem que a ausência de habitação permanente manteve intacto. É o tipo de vegetação que cresce sem que ninguém a conduza.
A Ilha dos Amores não tem grande afluência turística — a travessia de barco é um filtro que a maioria dos visitantes da região não atravessa.
O que fica depois de lá chegar é a confluência dos dois rios vista de dentro, as ruínas do castelo que controlou essa mesma confluência no século XII, e o silêncio específico dos lugares a que a água chega de todos os lados.







