No extremo noroeste da província de Zamora, em plena Alta Sanábria, Hermisende vive numa fronteira que raramente se sente. A poucos quilómetros de Trás-os-Montes, esta pequena aldeia espanhola partilha com Portugal mais do que a proximidade geográfica: partilha língua, arquitetura e memória histórica.
Caminhar pelas suas ruas de pedra é reconhecer traços familiares. O casario tradicional, robusto e adaptado ao clima rigoroso da serra, poderia facilmente integrar qualquer aldeia raiana portuguesa.
E quando se escutam as conversas locais, a sensação intensifica-se: o dialeto preservado em Hermisende é uma variante do galego-português, marcada por arcaísmos que soam surpreendentemente próximos do português antigo.
Uma história de fronteiras instáveis
A ligação a Portugal não é apenas impressão cultural. Ao longo dos séculos, a soberania da aldeia foi objeto de disputa entre as coroas ibéricas. Diversos historiadores defendem que Hermisende terá pertencido a Portugal até à Guerra da Restauração (1640–1668).
Segundo a tradição local, após a subida ao trono de D. João IV, a soberania passou para Espanha com o consentimento das populações, ainda que os laços culturais nunca tenham sido totalmente quebrados.
O próprio topónimo tem origem visigótica, associado ao nome Ermesinda, rainha das Astúrias, testemunhando uma herança antiga que antecede as fronteiras modernas.
O que ver e explorar
O património arquitetónico é discreto mas significativo. A Igreja de Santa Maria, templo barroco do século XVIII com influências galegas, destaca-se pelo campanário e pela sobriedade da cantaria.
Outro ponto de interesse é o chamado Penedo dos Três Reinos, marco simbólico onde se cruzavam as fronteiras de Portugal, Leão e Galiza — um local que reforça a ideia de encontro entre territórios.
A envolvente natural é um dos grandes trunfos da região. O Castañar de Hermisende reúne castanheiros centenários que, no outono, transformam a paisagem numa paleta de tons quentes. A zona integra áreas de grande valor ecológico, onde ainda circula o lobo ibérico, além de corços e javalis.
Para quem aprecia caminhadas, os trilhos da Alta Sanábria proporcionam percursos entre bosques, ribeiras e miradouros naturais.
Sabores de fronteira
À mesa, a mistura cultural mantém-se evidente. O pulpo a feira convive com pratos de bacalhau de influência portuguesa. A carne de vitela da região e o arroz à zamorana completam uma oferta gastronómica onde as tradições se cruzam sem conflito.
A cozinha reflete aquilo que a história construiu: uma comunidade moldada por contactos permanentes entre povos vizinhos.
Uma identidade que ultrapassa mapas
Visitar Hermisende é perceber que as fronteiras políticas nem sempre definem identidades culturais. Entre a língua preservada, a arquitetura de pedra e a memória das disputas históricas, a aldeia afirma-se como território raiano por excelência.
Mais do que uma curiosidade geográfica, Hermisende é um testemunho vivo de como a história ibérica se construiu em zonas de contacto. Para quem parte de Portugal, a viagem não soa a estrangeiro — soa a continuidade.







