O documento tem 120 páginas. Foi descoberto nos arquivos da Fundação Francisco Franco depois de seis décadas e meia de silêncio, e descreve, com o detalhe minucioso que os planos militares costumam ter, como a Espanha invadiria Portugal em 1940.
Não é especulação histórica nem teoria não comprovada — é um plano operacional, com divisões numeradas, rotas de avanço, e a frase que Franco escreveu de próprio punho: “decidi preparar a invasão de Portugal, com o objectivo de ocupar Lisboa e o resto da costa portuguesa.”
Nunca aconteceu. Mas esteve mais perto do que a maioria dos portugueses alguma vez imaginou.
Portugal não era o alvo – era o caminho
Em 1940, com a Europa em guerra, Portugal e Espanha mantinham-se formalmente neutros. Tinham assinado um Pacto de Amizade e Não-Agressão em 1939, e Salazar tinha apoiado Franco durante a Guerra Civil Espanhola apenas alguns anos antes. Nas aparências, os dois regimes ibéricos eram aliados.
Mas Franco tinha uma obsessão que a neutralidade não resolvia: queria um império colonial espanhol no norte de África, e a única forma realista de o conseguir era com apoio alemão. A Alemanha, por sua vez, queria Gibraltar — controlado pelos britânicos, e essencial para ligar o Mediterrâneo ao Atlântico.
A troca proposta era directa: se a Espanha entrasse na guerra do lado do Eixo e ajudasse a tomar Gibraltar, a Alemanha entregaria à Espanha os territórios franceses do norte de África.
O problema era o que aconteceria a seguir. Franco sabia que atacar Gibraltar provocaria retaliação britânica — e que essa retaliação usaria provavelmente as Canárias e Portugal como bases. Um Portugal sob controlo espanhol resolvia esse problema antecipadamente: protegia o flanco atlântico antes de a Inglaterra ter oportunidade de o usar.
Portugal não interessava a Franco por si próprio. Interessava como peça de um tabuleiro maior.
O plano
O documento descreve uma invasão a duas frentes, dividindo Portugal ao meio através do Tejo. Um exército avançaria por Ciudad Rodrigo em direção à Guarda, Celorico da Beira, Coimbra e Lisboa. Outro seguiria por Elvas, Évora e Setúbal.
O objetivo de ambos era o mesmo: Lisboa, o mais rapidamente possível, dividindo o país em três zonas e tornando qualquer resistência organizada impraticável.
Os números envolvidos eram esmagadores: dez divisões de infantaria, uma de cavalaria, quatro regimentos de tanques, oito grupos de exploração de cavalaria, oito regimentos mistos de infantaria — cerca de 250 mil homens. O dobro do que Portugal tinha disponível.
A aviação espanhola entraria com cinco grupos de bombardeiros, caças e unidades de assalto, e Franco contava com reforço aéreo alemão para neutralizar qualquer superioridade luso-britânica nos céus.
O texto do plano justificava a operação com uma lógica preventiva: a “escassa potencialidade” de Portugal e o “atractivo das suas costas” tornavam provável que a Inglaterra tentasse ocupar bases navais portuguesas em caso de conflito alargado. Melhor, na lógica de Franco, ocupar primeiro.
Não se previa um exercício militar complicado. O documento foi entregue a Franco em finais de 1940, completo, com a proposta de começar por um ultimato com condições impossíveis de cumprir — o pretexto formal de que qualquer invasão precisa.
Porque é que nunca aconteceu
A resposta mais simples é que a Espanha nunca chegou a entrar na guerra. As negociações entre Franco e Hitler para a entrada espanhola no conflito arrastaram-se sem acordo — Franco pedia mais do que a Alemanha estava disposta a garantir, e o momento foi-se perdendo. Sem entrada na guerra, não havia gatilho para a invasão de Portugal, que dependia inteiramente desse cenário.
O plano ficou nos arquivos. Ficou lá durante 67 anos, até ser encontrado e tornado público — descrito em detalhe no livro A Grande Tentação, de Manuel Ros Agudo.
A pergunta que fica
Há um detalhe no documento que nenhum historiador consegue responder com certeza: a ocupação seria temporária, durando apenas enquanto a guerra durasse, ou seria o primeiro passo para uma anexação definitiva?
O texto não esclarece, e talvez nem o próprio Franco tivesse a resposta firmemente decidida — planos desta natureza costumam manter ambiguidade deliberada sobre os objetivos finais, precisamente para manter opções abertas.
O que é certo é que, durante alguns meses de 1940, existiu um plano operacional completo para que 250 mil soldados espanhóis atravessassem a fronteira e tomassem Lisboa em três dias.
Salazar nunca chegou a saber — pelo menos não com os detalhes que hoje conhecemos. E os portugueses de 1940, que viviam a neutralidade como uma certeza tranquila, não faziam ideia de quão perto essa certeza esteve de deixar de existir.







Se se tivesse concretizado, teria sido a décima ou décima primeira invasão de Espanha, ou Castela, a Portugal. Só não entendo esta fixação em tratá-los como “nuestros hermanos”! Vade retro, fratres!