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Dipo: uma antiga cidade celta com 2300 anos escondida no Alentejo

Dipo, possível capital celta dos Sefes, pode estar enterrada em Évora Monte. Escavações revelam estruturas do século III a.C. de uma cidade que resistiu à conquista romana.

VxMag by VxMag
Mai 29, 2026
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Antes dos romanos chegarem ao Alentejo, antes de Évora se tornar o centro urbano que ainda é, houve outra cidade neste território. Chama-se Dipo — ou chamava-se, porque durante séculos o nome desapareceu completamente da memória histórica.

As escavações arqueológicas em Évora Monte estão a sugerir que pode estar aqui, a poucos metros abaixo da superfície da vila medieval que todos conhecem.

Se a hipótese se confirmar, Dipo teria sido a capital dos Sefes — um povo que habitou o sul da Península Ibérica muito antes de Roma aparecer no horizonte.

Os Sefes e o povo das serpentes

Os Sefes, também conhecidos como Ofis — o “povo das serpentes” — chegaram à Península Ibérica por volta do século IX a.C., possivelmente antes. Estabeleceram-se em vastas áreas do sul e fundaram várias cidades que sobreviveram com outros nomes: Olisipo era Lisboa, Beuipo era Alcácer do Sal, Colipo era Leiria. Eram, segundo alguns historiadores, uma das tribos celtas culturalmente mais desenvolvidas que existiram neste território.

A escolha de Évora Monte como localização para a capital não seria acidental. A posição elevada sobre as planícies alentejanas oferecia visibilidade e condições defensivas que um terreno plano nunca daria. Em tempos de conflito e invasão — e aquele era um período de ambos — subir para o alto fazia toda a diferença.

A resistência a Roma

As fontes antigas identificam Dipo como uma das cidades mais relevantes do sul peninsular, e apontam para uma resistência prolongada à conquista romana. Os exércitos de Roma tentaram tomá-la várias vezes e encontraram oposição suficiente para que a cidade merecesse menção nas crónicas militares.

Com o tempo, o fortalecimento de Évora como centro urbano romano deslocou o poder para outro ponto. Dipo perdeu importância, o nome foi-se apagando, e a cidade ficou enterrada — literalmente — debaixo de séculos de ocupação posterior.

O que as escavações encontraram

As escavações arqueológicas em Évora Monte têm revelado estruturas datadas do século III a.C. — o período em que Dipo terá estado no seu apogeu — e peças de cerâmica e artefactos em bronze compatíveis com uma povoação sofisticada, com expressão cultural própria e recursos suficientes para produzir objectos que não eram de uso quotidiano.

A confirmação definitiva de que Évora Monte é o local de Dipo ainda não existe — a arqueologia trabalha com hipóteses que as camadas de terra vão confirmando ou desmentindo devagar. Mas as evidências acumuladas apontam com uma consistência crescente para este sítio.

O contexto mais amplo

A chegada dos Sefes terá provocado deslocamentos de populações que habitavam zonas mais expostas — as margens do Guadiana, as planícies abertas do Alentejo.

Muitos desses grupos procuraram refúgio nas serras, como a Serra de Ossa, onde surgiram povoados fortificados que arqueologicamente parecem confirmar um período de forte instabilidade. São as marcas secundárias de uma chegada que os textos não registaram diretamente mas que o território guarda na disposição dos sítios.

Évora Monte é hoje uma vila medieval com muralhas, um castelo e casas caiadas de branco que se vê de longe na planície alentejana. Por baixo disso, se as escavações confirmarem o que os arqueólogos suspeitam, há uma cidade de 2300 anos que resistiu aos romanos, foi capital de um povo que fundou Lisboa, e cujo nome desapareceu durante séculos. A história do Alentejo começa muito antes do que os manuais geralmente contam.

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