Na encosta soalheira da Serra da Lousã, a pouco mais de dez quilómetros da vila da Lousã, o Candal desenha-se em socalcos de pedra escura voltados ao vale.
É uma das imagens mais reconhecíveis da rede das Aldeias do Xisto, mas a popularidade não lhe retirou escala nem identidade. Aqui, o xisto dita a arquitetura, a água marca o compasso e a serra impõe silêncio.
Muitas visitas começam com a ideia de subir ao Trevim, ponto mais alto da serra, mas o Candal justifica paragem demorada.
O acesso é simples, a recuperação do casario foi feita com critério e o equilíbrio entre turismo e quotidiano mantém-se visível nas ruelas inclinadas, onde as fachadas recuperadas convivem com portas antigas e pequenos apontamentos floridos.
Entre a ribeira e os moinhos
O primeiro impacto é visual: casas compactas, muros robustos, varandas discretas voltadas ao sol. A intervenção recente respeitou a traça original e trouxe novas funções ao interior — alojamentos, espaços de apoio, pequenas lojas — sem descaracterizar o conjunto.
No centro, o chafariz lembra o tempo em que a água organizava rotinas. A ribeira atravessa a aldeia e alimentava cinco moinhos, testemunhos de uma economia agrícola e comunitária que moldou o território. Seguir o som da água é perceber como o Candal cresceu em diálogo permanente com a montanha.
A curta distância, a Cascata do Candal surge como pausa natural. O acesso faz-se por trilho irregular, mas a pequena queda de água, enquadrada por vegetação densa, compensa o cuidado na descida — sobretudo nos dias quentes, quando a sombra se torna abrigo.
Miradouros e caminhos com vista
No topo da aldeia, o Miradouro do Candal ajuda a ler a paisagem: o casario encaixado na encosta, o vale a perder de vista, as linhas da serra a desenharem o horizonte. Ao fim da tarde, a luz rasante acentua as tonalidades do xisto e sublinha o traçado das ruas.
Para quem prefere descobrir a região a pé, o trilho PR2 liga o Candal ao Talasnal, atravessando bosques de castanheiros e carvalhos. Há troços exigentes, mas também clareiras que revelam panorâmicas amplas.
Outra opção é seguir a levada, acompanhando os antigos canais que conduziam a água aos moinhos — um percurso mais tranquilo, ideal para observar a envolvente.
O Candal integra ainda um circuito mais vasto pela serra, podendo articular-se com aldeias próximas como Casal Novo ou Chiqueiro, numa sequência que alterna pedra, floresta e vistas abertas.
Natureza e mesa serrana
A envolvente tem elevado valor ecológico. Carvalho-negral, castanheiro e mato serrano estruturam a paisagem, onde o aroma da carqueja se torna presença constante. Ao amanhecer ou ao final do dia, não é raro avistar veados, javalis ou aves de rapina a sobrevoar as encostas.
À mesa, a tradição mantém-se firme. No restaurante Sabores da Aldeia, a chanfana — carne de cabra cozinhada lentamente em vinho tinto, em caçoila de barro — e o cabrito assado são referências da serra. O mel da Lousã (DOP) e os licores artesanais completam a experiência, prolongando o sabor da montanha.
Um ponto de partida para explorar
Apesar da proximidade à Lousã e da estrada que facilita a chegada, o Candal conserva um ambiente resguardado. Entre a ribeira, os trilhos e o casario de xisto, afirma-se como base consistente para descobrir a Serra da Lousã com tempo.
Trata-se de uma aldeia habitada pela memória da água e pela solidez da pedra. Aqui, a montanha impõe ritmo próprio e convida a ficar — nem que seja para ver a luz mudar sobre o xisto ao cair da tarde.







